Antiporcos: torcidas organizadas se opondo ao caos social

Como o nome já diz, odiamos todo e qualquer policial, então se tiver algum aí vá se foder”

Estas são as palavras proferidas com total naturalidade por Dudu, o frontman da banda Antiporcos, nos primeiros segundos do clipe de Sempre Que Queremos. Truculenta e extremista pra alguns, mas natural para alguém pertencente a um grupo cujos olhares vindos da opinião pública, da mídia e do sistema são, na maioria das vezes, de desprezo. Com uma sonoridade que mescla os cânticos de torcidas organizadas com o punk rock de bandas como Sex Pistols e Ramones, os Antiporcos simplesmente não se importam com o que pensam deles, mas essencialmente em se divertir, e não menos importante: enviar uma mensagem a todos que estejam dispostos a ouvir.

Caio Vinícius: Antes de qualquer coisa, me falem sobre a banda. O que é a Antiporcos e como ela surgiu?

Antiporcos: A banda surge como quase toda banda punk, da necessidade de quarto amigos cuspirem ódio social decorrente das mazelas sociais que vivenciam, principalmente da opressão policial , como o nome já denota. Dentre os temas intrínsecos que uma banda punk defende, a Antiporcos trêmula a bandeira do futebol raiz, se posicionando contra a mercantilização que no nosso entender , segrega de forma nociva quem pode ou não assistir a um jogo.

O que vocês acham da visão marginalizada que muitas pessoas acabam tendo das torcidas organizadas – de enxergar o grupo como algo não pertencente à sociedade?

Essa visão faz parte de um contexto midiático, onde a mídia, no seu papel de formadora de opinião, vem há anos estereotipando as torcidas, veiculando apenas matérias mercadológicas no contexto da sua política editorial. Todas as torcidas tem seus núcleos de ações sociais que o ano inteiro realizam diversas atividades, mas isso nunca foi pauta pra jornalista nenhum […] enquanto que brigas de dez pessoas já distantes do estádio viram manchete no Jornal Nacional.

Quando a banda começou, vocês já tinham em mente a crítica social? Quem de vocês foi o primeiro a trazer a ideia da banda?

Sim. A banda surgiu justamente por isso. Foi numa conversa entre eu [Tripa] e Eduardo, como somos da mesma torcida, gostaríamos de levar essa vivência de bancada para o nosso som, tendo em vista que nos conhecíamos da cena mas nunca tínhamos tocado juntos.

Ao pensar em Salvador logo lembramos do axé e ritmos semelhantes. Parece uma ideia muito distante para alguns uma banda de punk nesse contexto social. Qual a visão de vocês a respeito disso?

É a imagem estereotipada/comercial que vendem a cidade, mas basta uma rápida pesquisa, nem tão profunda, e é possível encontrar bandas e músicas do rock que marcaram gerações. Isso reflete na cena independente, principalmente no rock, que vai perdendo lugares para expor seu trampo.

Como é a relação entre os membros da banda – tanto em questão da relação pessoal de vocês quanto ao processo criativo?

De irmandade mesmo, a gente se dá muito bem, existe um respeito muito grande e um conhecimento de quem é cada um e o que pode fazer pelo nosso projeto. Isso reflete nas composições que são feitas facilmente quando entramos no estúdio.

Todo mundo tem a visão do punk rock com algo sombrio e nefasto, mas eu percebi nas músicas de vocês que, melodicamente, elas são mais alegres e coloridas. Isso tem a ver com a influência da torcida no trabalho de vocês?

Não tem muito a ver com a coisa da torcida. Na verdade tem mais a ver com todos os membros da banda se identificarem com a sonoridade do punk 77. Em cada disco a gente teve uma sonoridade levemente diferente. Nesse primeiro EP, que foi o Enquanto Houver Injustiça Estaremos no Front, tem muito disso, o som do punk 77. O segundo já varia mais um pouco: as músicas são um pouco mais rápidas. Já no terceiro, o Contra o Genocídio do Povo Negro, até pela temática, tem uma pegada mais pesada, com influencia do hardcore novaiorquino, não pela parte do metal mas pela crueza do som. E esse último que lançamos, O Bagulho é Torcida, já tem uma pegada mais cântico, não é tão pesado quanto o anterior, mas também não é tão animado quanto o primeiro. O que a gente pode dizer que influenciou o som da gente vindo das torcidas foram duas coisas: uma é o clima de festa, em qualquer performance que você ver da gente vai perceber essa energia mais animada, e os cânticos. A gente tem muito “sing along”, muito coro em nossas músicas.

Me contem diz o que vocês diriam pra quem tá começando a se meter com a arte

Então, eu não tenho muito conselho pra dar em relação a isso não (risos). Eu acho que cada qual sabe o que lhe agrada, o que lhe dá prazer e sentido à vida e se é isso que lhe traz satisfação pessoal em meio às dificuldades da correria do dia a dia, daquele lance de fazer uma grana, não para. Pra muitas pessoas isso não é uma realidade, a pessoa acaba tendo que largar aquilo que que traz satisfação, alegria, prazer pra priorizar conseguir o seu retorno financeiro. Então é difícil dizer pras pessoas se jogarem na sua arte, sendo que no Brasil não é assim que funciona. Dentro do que você acredita e do que você pode, desde que não sacaneie ninguém e que a sua corrida seja uma corrida digna.

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