Além da tela: uma análise do live action de Mulan

Em 1998 os estúdios Walt Disney trouxeram às telas o desenho animado Mulan, dirigido por Tony Bancroft e Barry Cook. A grande guerreira conquistou todos os que assistiram, e tem uma importância muito grande por se tratar de uma heroína asiática. Apesar de muitas críticas e acusações de apropriação cultural na época, a animação continua fazendo bastante sucesso hoje em dia. Apenas 22 anos depois o live action dessa estória encantadora foi lançado. A produção foi dirigido por Niki Caro, diretora neozeleandesa, e dividiu o público entre aqueles que amaram e aqueles que odiaram.

Para começar a falar dessa obra é preciso mencionar que as pessoas se decepcionaram ao assistir essa nova adaptação por ser MUITO diferente da versão animada. O live action tem muito mais ação e drama em comparação ao desenho. Na verdade, a animação é infantil, enquanto o novo filme pertence mais a um público juvenil.

First things first, no live action não existe a presença dos ancestrais como personagens. Mas calma aí! As pessoas fazem preces aos ancestrais, honrando a sua cultura e tradição, mas eles não aparecem como no desenho animado. O motivo de maior frustração de quem assistiu é a ausência do nosso querido Mushu. Na nova adaptação ele não existe! O símbolo do dragão aparece algumas vezes, entretanto, fomos agraciados com a presença da Fênix (Fenghuang), que guia Hua Mulan e protege-a. A Fenghuang é um dos pilares da cultura chinesa, ficando atrás apenas do Dragão. A Fênix representa a imperatriz enquanto o dragão representa a imagem do imperador.

No filme também não temos a avó de Mulan e sim uma irmã mais nova. Essa irmã é o futuro da família, pois ela apresenta todos os comportamentos de gênero feminino atribuídos à mulher na época, enquanto Hua Mulan não se encaixa em nenhum desses padrões. Algo MUITO legal nessa nova adaptação é que a guerreira possui uma força interior chamada Ki (Chi) que, em homens, é uma qualidade muito positiva e viril, o que torna-o um ótimo guerreiro. Já em mulheres é algo demasiado negativo, por isso as mulheres que nascem com o Ki são tachadas de bruxas.

O live action de Mulan tem uma importância cultural muito forte, pois o filme resgatou e tentou ao máximo reproduzir fielmente a verdadeira estória de Mulan.

Para quem não sabe, a lenda de Mulan já existe desde o século VI (6), e se chama Ballad of Hua Mulan. Depois de muitos anos, alguns textos foram perdidos, e não há provas de que Mulan realmente existiu. No entanto, a sua estória tem origem em uma antiga canção da Dinastia Wei do Norte (386 – 57 d.C).

Abaixo, uma das muitas versões da canção, traduzida em português publicada pelo Epoch Times:

Suspiro após suspiro, Mulan tece diante de sua porta.
Ninguém pode ouvir o som do tear, apenas os suspiros da pobre menina.
Pergunte-a quem está em seu coração, ou quem está em sua mente.
Ninguém está em seu coração, e ninguém está em sua mente.
Ela viu os rascunhos militares ontem à noite, Khan está convocando muitos soldados.
Uma dúzia de listas rascunhadas, cada uma com o nome de seu pai.
O pai não tem um filho crescido, Mulan não tem irmão mais velho.
Ela decide adquirir um cavalo e sela, e alistar-se em lugar de seu pai.
No mercado leste, ela compra um cavalo, no mercado oeste, uma sela.
No mercado norte, ela compra um freio, e, no mercado sul, um longo chicote.
À alvorada, ela se despede de seu pai e de sua mãe, ao anoitecer, ela acampa às margens do Rio Amarelo.
Ela não podia ouvir os pais chamando pela filha, apenas as águas do rio fluindo.
À alvorada, ela deixa o Rio Amarelo, ao anoitecer, ela chega à Montanha Negra.
Ela não podia ouvir os pais chamando pela filha, apenas os cavalos selvagens na vizinhança do Monte Yan.
Viajando dez mil milhas ao encontro da batalha, passando montanhas e serras como se voando.

Foto: Reprodução/Disney

A partir da leitura dessa canção, percebe-se que o live action de Mulan foi muito mais fiel à história verdadeira do que a animação de 1998, o que não muda o fato de uma parte dos telespectadores não terem gostado tanto assim da nova adaptação – embora a maioria nem saiba que ambos, desenho e adaptação, foram inspirados na história de Mulan, que pode ter sido uma ou várias mulheres, já que não existem provas de que ela de fato existiu. É claro que nem mesmo o live action reproduziu tão fielmente palavra por palavra da canção, como por exemplo, o verso em que diz que Mulan lutou no exército por 12 anos sem que os seus colegas e superiores notassem que ela era uma mulher, pois em ambos os filmes o período que ela lutou foi bastante curto e logo a sua identidade foi revelada.

A importância social dessa produção é gigantesca, pois a maior parte do elenco realmente é chinesa ou de origem asiática. Do ponto de vista social, cultural e de gênero, a animação Mulan significa muito para inúmeras menininhas. É magnífico ver, na televisão, uma garota subvertendo padrões e fazendo as mesmas coisas que os homens fazem, mesmo quando a sociedade insiste em dizer que não podemos.

Mulan, lançado em março de 2020 é uma obra linda, culturalmente rica e representativa, que diz muito sobre o lugar da mulher na sociedade, seja em qualquer continente, além de abordar a marginalização histórica que afeta as mulheres que decidem subverter os padrões. Nenhuma de nós deve se esconder na sombra de um homem, ou viver sob a identidade de um homem para ter credibilidade. E o melhor do filme é que Mulan já sabia que possuía o Ki (Chi), mas ela só assumiu a sua identidade com orgulho depois de seu confronto com Chien-Po, quando uma outra mulher a incentivou e mostrou para ela a força que ela tinha dentro de si própria. As mulheres crescem e se fortalecem ao se juntar e essa talvez seja uma das lições mais lindas de Mulan.

Zeen is a next generation WordPress theme. It’s powerful, beautifully designed and comes with everything you need to engage your visitors and increase conversions.