Potência cultural entre o Sertão e a Zona da Mata: Coletivo Arte na Rua finca os pés no chão de sua própria terra

Cerca de 230 quilômetros separam Garanhuns da capital Recife. A cidade, localizada no Agreste Meridional, foi parida pelo povo preto dos quilombos que até hoje luta para perpetuar a identidade e representação cultural na cidade interiorana. Por entre as sete colinas, no Planalto da Borborema, o município que é apelidado pelo Rei do Baião de “Suíça Brasileira”, por remeter às baixas temperaturas registradas entre os meses de julho e setembro, pode também nos fazer refletir sobre quais referências e costumes buscamos nos espelhar e seus efeitos na contribuição para o apagamento da nossa própria identidade.  

Trazendo a vivência histórica para os tempos atuais, é também em Garanhuns que nasce o Coletivo Arte na Rua, formado majoritariamente por pessoas pretas, periféricas e pertencentes à comunidade LGBTQIA+, com a proposta de movimentar a cena cultural garanhuense, pondo em voga a resistência da etnicidade do povo do interior. O grupo ocupa, sazonalmente, o Marco Zero da terra de Dominguinhos, expondo produtos artísticos feitos por artistas locais — roupas, quadros, comidas, pinturas, fotografia, artes visuais e música ecoam pelo coração da localidade e de quem passa por lá.

A primeira mão a traçar a criação do grupo foi a da artista visual e empreendedora Vinn Amara, que anteriormente saía pelas ruas com o intuito de vender sua arte cuidadosamente pintada em peças de vestuário. Conversando com outras empreendedoras locais, Vinn viu surgir a oportunidade de reunir artistas da cena cultural garanhuense.

Em abril de 2019, começamos um grupo com três expositores e, após a primeira vez, 11 ou 12 pessoas já passaram a fazer parte. A gente queria movimentar o centro. Muitas pessoas passam pelo local, mas não vivem ele, não apreciam. Nós queremos trazer essa vivência e experiência sensorial”, explicou Karolyne Albuquerque, uma das primeiras expositoras do coletivo.

A artista visual e empreendedora Vinn Amara foi a grande idealizadora do Coletivo.
Foto: Arquivo Pessoal/Arte Na Rua

Nascia ali, agora oficialmente, um grupo potente e subversivo. “Nós tentamos ser a Suíça Pernambucana, mas antes disso, somos quilombo. A cidade tem origem preta e a nossa arte busca ter essa ligação com os nossos ancestrais. Queremos dizer para as pessoas que moram aqui que elas podem expressar suas linguagens artísticas. Muitos que trabalham na cena cultural daqui são da periferia, são homens negros. Mesmo você ignorando, aqui, a raiz é preta. A raiz são esses senhores e a nossa cultura é essa”, explicou Andreza Almeida, que ao lado de Vinn e Karol, participa da diretoria do grupo. 

O Arte na Rua, inclusive, conseguiu furar a bolha artística que muitos dos próprios expositores se encontravam. “A partir desses encontros, a gente pôde conhecer pessoas que estavam aqui, na nossa cidade, próximo da gente, que nós mesmas não sabíamos que existiam. Tem muita gente com trabalhos incríveis. A gente sabe que a internet é importante mas é primordial trazer a experiência de vivenciar a rua, o centro”, explicou Karol, que enfatizou a importância de promover o mercado local e a compra consciente. 

Ao longo do ano de 2019 e início de 2020, o grupo foi se fundamentando e participou, inclusive, do 5º Coquetel Molotov Belo Jardim. A experiência de expor em um festival de música independente rendeu uma volta à cidade para o evento Baile do Jura. “Foi uma experiência muito gratificante. Cada local tem um jeito de tratar sua cultura e a gente quer criar uma ponte para que o interior se fortaleça e só dá pra fazer isso em rede. Tem muita gente fazendo arte sem saber que tá fazendo arte”, contou Andreza. O Coletivo também saiu do centro para trocar vivências com os moradores de Curiquinha dos Negros, comunidade quilombola da cidade de Brejão, próximo a Garanhuns, no Luau Maria Quitéria Parteira.

O Marco Zero de Garanhuns é o ponto de encontro e exposição do Arte na Rua.
Foto: Arquivo Pessoal/Arte Na Rua

Porém, desde o mês de março, a rua, que a todo momento foi a casa do coletivo, tem estado vazia. A triste realidade que a pandemia trouxe impediu que o grupo celebrasse o primeiro ano de vivências e resistências. Mas isso não desanimou o pessoal, que já tem planos para quando o momento for mais oportuno.

Nosso objetivo ficou traçado de que nós iríamos privilegiar a rua. Nós chegamos a fazer eventos fechados, mas a ideia este ano era ocupar as diversas localidades de Garanhuns. Queremos levar a arte para a periferia e fazer com que Garanhuns observe esses olhares”, finalizou Andreza. 

Enquanto a pandemia não passa, é possível conferir a pluralidade cultural dos participantes do grupo pelo Instagram do coletivo, por meio do projeto #ArteEmCasa, que expõe toda a jornada do movimento.

Fazer cultura é resistir: o Coletivo Arte na Rua carrega bandeiras de luta e conquista de direitos
Foto: Arquivo Pessoal/Arte Na Rua.

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