Made in Pernambuco: Luamarte em sua metamorfose ambulante

Era de se esperar que em uma cidade pequena como Vitória de Santo Antão as pessoas se conhecessem, mas a dupla de amigos, Joyce e Afonso Santti, só de fato iniciaram essa amizade em uma viagem a Tamandaré em 2017 quando decidiram mostrar suas músicas um pro outro e embarcar nessa coisa de musical autoral. No inicio, como parece ser comum em muitas bandas, eles faziam parte de outro grupo com mais quatro integrantes, intitulada Rua Aurora. Contudo, a banda se desfez em 2018, o que pareceu ser uma oportunidade para Joyce e Afonso juntarem seus ideais parecidos e iniciarem como uma dupla – e o que antes era só um hobby foi se tornando em Luamarte.

A escolha do nome foi algo difícil. “A essência de uma banda deve estar no nome”, disse Afonso. No entanto, escolher o nome certo é uma responsabilidade e tanto. Então, em um momento de livre e espontânea pressão, a ponto de se apresentar em um festival sem um nome, a ideia de Luamarte surgiu. Um anagrama. Amar, mar, lute, lua, arte. Todas as palavras que fazem sentido para a dupla se uniram em uma só e demostraram o que eles desejavam passar ao público.

Esse anagrama representava o que a gente queria passar para as pessoas. Que a gente sempre preza para elas olharem além, olharem mais afundo, seja nas coisas que acontecem na nossa vida ou na vida dos outros. Sempre defendemos que não se deve passar pela vida das pessoas de forma superficial. Enfim, se a gente adotar isso pra vida vamos conseguir ter relações muito mais saudáveis com o mundo e com as pessoas. E, assim, naquele momento o nome Luamarte fez toda essa filosofia que faz parte até hoje de todo um processo da gente se encontrando como artista e projeto musical.”, diz Afonso.

Uma das principais características que se pode destacar da Luamarte é sua vulnerabilidade, sua forma de não temer o sentir e tudo isso se retrata nas suas músicas. Eles podem até ter amadurecido tanto nas composições quanto nos ideais, mas uma coisa que continua o mesmo é a vontade de expressar esse sentir deles e fazer com que isso se torne significativo para as pessoas.

A questão é que a gente olha para o outro como um igual. Até vez ou outro acho muito surreal quando as pessoas vem falar com a gente como fãs. Sempre tratamos eles como iguais. Que massa que você gosta do nosso trabalho, poxa, muito obrigada, mas sou tão igual quanto você, sabe? Não há essa de superioridade. Eu acho que essa tranquilidade faz as pessoas se sentirem intimas da gente, mais próximas”, conta Joyce.  

A música Acalma do ep passado é um bom exemplo que marca esse amadurecimento da dupla. Seja uma música de amor ou de não amor, a Luamarte faz o público se fundir com seu jeito de expressar e convida para um momento de aceitação diante das diversas fases de mudanças e “tempestades”. Situações essas que eles passaram no passado e os tornaram o que são hoje, mas sem colocar um ponto final. É aquela velha coisa cantada por Raul, a metamorfose ambulante.

Essa consciência de que eles apresentando constantemente um processo amadurecimento e que estão sempre sujeitos a mudanças é bem explicita na hora de definir um só estilo. O duo é regional e, como toda boa banda daqui, eles têm orgulho de mostrarem suas raízes.

Eu acho difícil colocar qualquer rótulo que seja perfeito pra qualquer coisa, principalmente com a música da gente que tem passado por um processo de amadurecimento desde que começamos. Já experimentamos várias coisas diferentes. Composições, arranjos de formas diferentes, linguagem, enfim… Acaba que a gente percebe que a nossa música é um grande misto de várias coisas. Que tem um toque muito forte de MPB. Também tem um toque muito forte na nossa regionalidade pelo fato de ser aqui de Pernambuco, ouvindo as coisas que crescemos ouvindo e o nosso sotaque , então… a gente acaba misturando essa coisa de gostar do folk que fez parte do inicio do nosso trabalho”, relata Afonso.

Uma das canções que demonstram bem essa mistura de estilos é Pouco, que no inicio já nos lembra do toque clássico dos forrós daqui e que reforça as inspirações da dupla. Nomes como Dorgival Dantas, Fagner e outros do país como Elis Regina e Engenheiros do Havaí são os que mais trazem luz, mas, claro, sem perder a originalidade presente da Luamarte.

Diferentemente de outros artistas que procuram somente uma música chiclete pra lançar, a Luamarte se preocupa com o propósito da própria música. O volume de seguidores e fãs que eles apresentam hoje vem dessa virtude, de ter empatia no seu conteúdo. Enquanto o mundo, nesses momentos de crise, fala tanto em empatia, a dupla já esbanjava esse conceito há muito tempo e isso é um grande fator da identidade da dupla. Identidade essa que foi traçada, e ainda está sendo, pela sua paixão pela música.

Desde criança eu sempre tive uma ligação muito forte com ela, sempre fui muito puxada pra música. Então, não me imagino sem a presença dela, mesmo que eu não tenha pensado em trabalhar com ela antes, levando muito na brincadeira, eu tenho uma relação muito próxima, eu respiro música. […] E ter ela reconhecida é algo, pra mim, muito surreal. Eu escrevo de forma muito despretensiosa, sabe? Canção com teu nome é um exemplo. Eu escrevi pra mim, pra me acalmar, e quando algo assim vai pro mundo e tanta gente se identifica e diz que ela ajuda é uma coisa muito surreal. Me emociona muito. Acho que ilumina os caminhos pra ver o que a gente tá fazendo de fato”, compartilha Joyce.

E, obviamente, a Luamarte não seria ela mesma se eles não fizessem e passassem por tudo isso juntos.

Eu acho que a gente não sonhava em ser cantor, de viver de música, e isso aconteceu porque nós dois acontecemos. Se não fosse desse jeito eu não estaria fazendo isso hoje. Acho que Luamarte existe porque o nosso eu artista existe e porque a gente começou isso juntos. […] Compor com outra pessoa sempre foi difícil, mas a gente consegue ter uma afinidade muito boa. Existe uma força maior que liga a gente e liga a música”, concluiu Afonso.

Luamarte já percorreu muitos caminhos. Um milhão de views não é pra qualquer um. Porém, eles almejam mais. Parcerias com suas inspirações são mais que bem vindas e, claro, mais pessoas se identificando com as músicas

Mas como eles são aquele tipo de pessoas que apreciam as pequenas coisas, o que eles mais sentem orgulho é que as músicas da Luamarte impactam a vida das pessoas, levam sentido ou conforto para o público desde já. A brincadeira é que existe uma terceira mãozinha do destino ajudando-os a realizar tudo isso, pois tudo parece predestinado. Eu diria que pode até haver destino no meio, mas sem dúvida a maior culpada de todo o sucesso deles é o talento. Este que você pode checar com o novo lançamento deles, Três e Três, que acabou de sair da gaveta. Há mais quatro músicas, além desta, que eles pretendem jogar ao mundo, então, se preparem que eu tenho certeza que vocês vão ouvir falar muito sobre a Luamarte.

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