Made in Pernambuco: a identidade instrumental da Buffalo Lecter

Banda de rock instrumental erradicada no Recife, a Buffalo Lecter carrega um som abstrato, visceral e cheio de atitude. A conversa foi feita junto com o baixista Marcelo Duva, debatendo sobre as origens da banda, inspirações e se o rock deve, ou não, ter uma mensagem de resistência, independente da linguagem.

Fugir dos estereótipos não é mais uma opção na música moderna – é uma necessidade, uma busca constante compartilhada por vários artistas. Claro que a originalidade não aparece sozinha e nem brota do nada. Ser original vem muito de respeitar o passado e abraçar o futuro, somado ainda com o reconhecimento do artista e a consciência da origem de sua arte. Nessas surpresas boas que a vida me oferece, encontrei a Buffalo Lecter: uma banda de rock instrumental – bem pesada – erradicada em Recife. E ainda mais, bem original em sua fórmula.

 Numa noite de quarta-feira, me encontrei (mesmo que digitalmente) com o baixista, e produtor da banda, Marcelo Duva, que, entre duas ou três baforadas no cigarro e uns goles no café, me contou um pouco da recente trajetória da Buffalo Lecter na cena independente. O power trio formado por Marcelo Duva (baixo), Laio Orellana (guitarra) e Jadie Tavares (bateria) tem um som conciso e bem trabalhado, fazendo pensar que o grupo já vem fazendo jams longas e elaboradas a um bom tempo. Para a minha surpresa, a história foi totalmente outra.

Viemos todos de projetos diferentes. Os três só tocaram juntos pela primeira vez quando a Buffalo foi formada. O baterista e o guitarrista, a muito tempo atrás, já tinham compartilhado uns projetos e tal, mas eu nunca tinha tocado com nenhum deles. Existia uma banda chamada Insana Prometida, em que Laio (guitarrista) já tocava com um outro cara na bateria. Houveram complicações e a Insana acabou, mas Laio ainda queria reconfigurar a banda. Então, em 2017, ele me chamou e chamou Jadie pra formar o que hoje é a Buffalo Lecter.”

 A banda não escolheu o caminho mais fácil ao resolver fazer rock instrumental, principalmente em um momento em que ambos os estilos não estão completamente em alta. No entanto, é fato que a Buffalo Lecter é uma de algumas pérolas desse gênero tão raro. Bandas como Macaco Bong, Taco de Golfe e os rapazes do E a Terra Nunca Me Pareceu tão Distante são exemplos de como a música instrumental moderna ainda consegue se estruturar (e muito bem) dentro da cena nacional. A Buffalo Lecter, então, veio pra somar. Com apenas 3 anos de atividade, a banda já fez diversos shows pelos circuitos alternativos do Recife e lançou um EP com quatro músicas, que se juntam ao soar como uma enorme jam de 20 minutos.

 A gente se preocupou em, primeiro, rodar todo o Recife e Região Metropolitana, para depois partir pra capitais mais próximas. No primeiro ano, entre 2017 e 2018, a gente tocou em muito espaço, muita casa de show autoral. Não fazíamos menos de dois shows por mês, sabe? Sem falar que passamos um tempo idealizando o EP. No ano seguinte, em 2019, foi quando a gente se organizou para focar apenas nas gravações. Logo mais, iríamos partir numa turnê.”

Infelizmente, com a Covid-19 rolando solta por aí, a banda fechou as atividades até que a situação melhore. No entanto, já estão pensando sobre a turnê que estavam planejando iniciar no começo desse ano. No papo de hoje, entenderemos o universo da Buffalo Lecter, discutindo o que é ser uma banda instrumental, seus processos criativos e o rock como resistência cultural e política.  Bora conhecer logo esses caras pra já nos prepararmos pro próximo show, então:

Johnny: Vou começar com algo mais perto da realidade de vocês. Como é ser uma banda instrumental dentro do circuito de bandas independentes? É fácil…complicado…como é?

Marcelo: Vou falar mais da experiência da gente aqui em Recife, já que temos mais propriedade. Isso vale pra qualquer banda que tenha escolhido entrar pelo caminho da música autoral e independente daqui, sabe? A gente nunca sentiu nenhuma dificuldade em especial, pelo menos não para circular enquanto banda, mas na difusão de alguns fonogramas ou em casas de shows mais específicas já existe alguma resistência. Saber lidar com uma proposta que você não tá muito acostumado ou que não tem um público muito certo é bem normal, mas já percebi que é algo que a gente vai enfrentar mais ainda (risos). Mesmo sendo, muitas vezes, a única banda instrumental do line up, a gente sente que consegue circular bem. Inclusive, já tentamos promover eventos e festivais só com bandas de música instrumental, para justamente encontrar ambientes mais apropriados pra tocar.

Johnny: O lance do instrumental sempre foi o conceito musical de vocês? Como e quem surgiu com essa ideia? 

Marcelo: Surgiu de forma bem natural. Primeiro, Laio veio falar com a gente querendo reconfigurar a Insana Prometida: fazer de novo esse projeto, incluir novos integrantes e tal… passamos um tempo pensando em como fazer essa banda, mas nada saia. Foi quando a gente se reuniu mesmo e percebeu que ideia de vocal com letra não estava batendo. Aí a gente disse né “tem bateria, baixo e guitarra aqui. Então vamo meter a cara no instrumental (risos)”. Pensamos o quão viável seria ter uma banda de rock, ainda mais, instrumental circulando pela cena, visto que muitas bandas nesse estilo ou eram pouquíssimas, ou já tinham parado de funcionar. Eu contei a quantidade de bandas instrumentais e vi que tinham em torno de onze, com seis já inativas. Eram a gente e mais algumas, então tinha uma importância em marcar presença dentro desse gênero. Mas a gente já sabia das dificuldades, né? O público tá mais acostumado em ouvir músicas em formato de canção, com letra e músicas menores, então encontrar público pra uma banda com um formato como o nosso, que foge desses padrões, é complicado. Mas já que resolvemos nos arriscar, entramos de cara mesmo, desde o início trabalhando nos arranjos e correndo atrás de referências.

Johnny: Tu agora falou de algo importante, que é a preferência do público por músicas em formato de canções, mais fáceis de digerir. Na tua opinião, existe algum preconceito com a música instrumental, que tende a ser mais longa e complexa?

Marcelo: Acho que o público, em geral, tem lá suas preferências e a gente entende que não é todo mundo que gosta, ou escuta com frequência, música e rock instrumental, que é o nosso caso. Mas se você olhar bem, nos anos 90 surgiu muita banda dentro desse gênero e que fizeram muito sucesso. Então não acho que tenha um preconceito, não. Sabemos que o público não é grande, mas entendemos isso com muita naturalidade e isso não nos impede de continuar desenvolvendo nosso trabalho. Lembro que vi, recentemente, no canal Minuto Indie um vídeo sobre a história do rock e que incluía o rock instrumental dentro de um contexto. É massa isso, porque dá pra ver que esse gênero é relevante dentro da música e a gente se sente feliz colaborando dentro dele. É algo natural de toda cena.

Johnny: Falando agora do EP, vocês passaram um ano inteiro mergulhando em conceitos e idealizando como esse trabalho iria se desenrolar. Como foi esse processo de produção?

Marcelo: Então né, aquilo que eu te disse, a gente nunca teve a experiência de tocar rock instrumental (risos). A gente não queria chegar com uma fórmula pronta e nem soar genérico demais, então a gente foi ouvindo e acumulando muita coisa pra finalizar o álbum com um resultado legal. Nesse tempo, íamos muito pra estúdio, fazíamos jams, tinha improviso em cima de temas, eu levava um gravador pra ver se pegava algo legal pra por numa música… e ainda tinha aquela coisa do trio nunca ter tocado junto. Esses encontros foram massa para estabelecer o som que a gente queria tirar, mesmo sem nunca ter tido uma experiência de banda juntos. 2018 foi, basicamente, o ano todo desenvolvendo coisa pro EP e testando sonoridades diferentes, formatos diferentes… tanto que se você ouvir é difícil dizer o que a gente toca. Os feedbacks foram bem diferentes, sabe? Tinha gente dizendo que era Prog, Stoner, Mangue Psicodélico… enfim, que seja (sorri). Isso é fruto de influências pessoais de cada um, também. Os três são arranjadores do próprio instrumento e cada um mete mão na hora de compor, o que faz nosso estilo bem livre. Todo mundo acaba dando ideia de alguma coisa pra se inspirar e são sempre coisas muito distintas. Essa liberdade nas composições e essa preocupação com o arranjo dos instrumentos é algo fundamental, justamente para manter o dinamismo da música.

Foto: Reprodução/Divulgação

Johnny: Em se tratando da sonoridade do álbum, eu senti um lance meio misturado. Uma música chega com um riff bem Black Sabbath, mas depois parte pra algo mais atmosférico e nordestino, como na primeira era de Alceu Valença. Vocês se preocuparam em colocar arranjos mais regionais nas músicas?

Marcelo: Bicho, isso é algo curioso. A gente nunca se preocupou em se manter dentro de estilo nenhum, tá ligado? Há quem diga que a gente toca Stoner, Prog, Psicodélico e tal, mas a gente prefere tocar de tudo um pouco. A gente tem inspirações dentro desses gêneros, mas tudo o que a gente faz dentro do estúdio é muito nosso. Mas assim, por nós três morarmos em Recife e estarmos, o tempo todo, conectado com a musicalidade do forró, do brega funk, do axé, tudo acaba interferindo na nossa música. Aquela coisa, a gente improvisa muito quando toca e ensaia, então rola sim uma mãozinha regional automática sempre (risos). Acho que essas influências de ritmos e artistas da terra já estão dentro da gente, o que acaba por transparecer na nossa forma de tocar.

Johnny: Mas quais são os artistas e bandas que mais influenciam a Buffalo Lecter?

Marcelo: Black Sabbath, logo de cara. É a banda principal dos três, é a grande unanimidade. Mas assim, a gente se ligou muito em mapear as principais bandas instrumentais daqui do Brasil, saca? Então toda essa galera do circuito nacional é escola, para a gente. De exemplos de Recife mesmo, tem Cosmo Grão, Kalouv… saindo de Recife, mas no nordeste, tem Taco de Golfe. Taco de Golfe, hoje em dia, é tipo um Macaco Bong dessa nova geração, que é outra banda fundamental pro nosso som. Acho que dentro da música instrumental do Brasil, Macaco Bong é, sem dúvidas, nossa maior influência, seja por questões de sonoridade ou por questões profissionais mesmo. Dentro das influências de cada um, tem Jimi Hendrix, que é total inspiração pro nosso guitarrista. Já o batera curte mais rock britânico, desde os mais clássicos até os contemporâneos. Eu curto mais instrumental, jazz, funk, soul… essas coisas mais cabeça, mesmo (risos). Mas toda essa mistura se faz importante demais, saca? É muito bom para maturar nosso som.

Johnny: E influências fora da música. Têm alguma?

Marcelo: Eu sou muito ligado ao cinema e a literatura, inclusive a gente pensa em inserir alguns elementos e referências desses universos dentro das nossas músicas. Essas coisas de surrealismo e literatura fantástica são paradas que a gente curte bastante e tem vontade de trabalhar dentro de composições, só precisamos investir mais na mixagem das músicas da próxima vez. […] É sempre massa pensar em colocar trechos de filmes ou áudios de discursos políticos nas músicas, justamente pra dar um dinamismo maior nas temáticas que a gente aborda. Inclusive, a Buffalo sendo uma banda instrumental, é importantíssimo ter esses elementos adicionados ao nosso som, até pra variar nossas mensagens e nosso tom político.

Johnny: Na sua opinião, o rock deve tomar um direcionamento político, principalmente no momento que a gente tá vivendo no país ?

Marcelo:  Eu acredito que sim. É muito da nossa natureza, minha e dos meninos, acreditar num discurso de empoderamento cultural e popular. Vira e mexe a gente tá falando desses assuntos. É sempre importante para bandas terem opiniões próprias e levá-las adiante, mas acho que isso vai de cada artista. O cara pode pensar que nem a gente e não querer expressar suas opiniões, isso é perfeitamente compreensível. Mas, de verdade, eu sinto muita falta de um pensamento político mais sensato no rock, sim. Hoje em dia tem cada criaturinha que chega dá vergonha, tá ligado? Acho que muita coisa do rock se perdeu por ter caído nessa onda mais reacionária de pensamentos políticos, principalmente o pensamento crítico e a subversão. No meu ver, o hip-hop tá muito mais rock n´ roll do que qualquer outra banda por aí (risos). Mas fico feliz que no underground, pelo menos, o rock ainda tem uma certa força política. É muito necessário que a cultura acenda com um pensamento contra esse governo, se não o país jajá se torna um Talibã Gospel (ri demais, nessa hora).

Johnny: Pra finalizar aqui, queria dizer o quão incrível é ter uma banda autêntica e diversificada como vocês nessa nova geração de músicos. Mesmo sem nenhum tipo de letra ou poesia, o que a banda tenta expressar para esse novo público?

Marcelo: Essa é sempre a pergunta mais difícil que fazem pra a gente. No nosso ver, a música é a forma de arte mais abstrata que existe, principalmente dentro do contexto em que a Buffalo se insere. Quando a gente faz música instrumental, sem uma verbalização muito concreta ou mensagem na cara, não esperamos que o público venha com a intenção de definir de uma vez o que a gente quer dizer. A gente compõe esperando que a galera que tiver nos ouvindo tenha uma experiência psicológica pessoal, inserindo vários elementos que permitam essa viagem. Então, tudo aquilo que você puder sentir ao escutar a gente ao vivo, ou até no EP… tudo o que você entende, é verdade. Tudo o que você sentir é verdade. A mensagem, no final das contas, muda de acordo com cada pessoa. 

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