Conto: As Horas

Era, acredito que, por volta de 2 da madrugada. A luz que acabara de apagar no apartamento do prédio da frente entregava o horário, já que todos os dias (exceto domingos), o homem, que provavelmente é o marido, chega do trabalho exatamente às uma e cinquenta e cinco; tira os sapatos, enquanto joga as chaves na mesinha, desabotoa a camisa e a calça jeans, arremessa tudo em cima da cadeira, apaga a luz da sala e vai para algum outro cômodo. Tenho observado isso por dois anos, sem esquecer uma noite, logo sei que às duas, ele apaga as luzes.

Como sou uma criatura de hábitos noturnos, eu durmo cedo e acordo às uma e meia da madrugada, observo a rua e a rotina calma que só a noite proporciona, para então voltar a dormir às três e quarenta e seis, e acordar-me às seis para ir trabalhar.

Depois de dois anos e quatro meses, algo inusitado aconteceu: exatamente às duas e quinze ouvi um barulho que parecia de uma bicicleta vindo da esquina. O pedalar era calmo, sem pressa, como se não houvesse medo algum da noite, como se aquele fosse o horário perfeito para tal atividade. Curioso, continuei a olhar, esperando ansiosamente a pessoa que guiava aquela bicicleta. Até que, às duas e dezesseis, eu a vi. As suas madeixas escuras voavam no ritmo do vento e as suas pernas moviam os pedais com firmeza e sutileza ao mesmo tempo. Eu não consegui ver o seu rosto com clareza, porém imagino que seja incomum, assim como andar de bicicleta de madrugada. Num instante deu duas e dezessete, e ela já havia passado aquela rua e descido para a próxima, que foi a rua debaixo. Falo com certeza desse fato, pois o barulho emitido pelas engrenagens da bicicleta seguiu aquela direção, até ficar bem baixinho e eu concluir que talvez, ela já tenha entrado em outra rua. Permaneci na janela até às três e quarenta e três, então decidi me arrumar e ir para a cama dormir.

As horas passaram-se fugazmente até o sol beijar o meu rosto com os seus raios, assim, despertando-me de meu sono frágil e ameaçado pela curiosidade. São seis em ponto, então eu levanto e vou me arrumar para trabalhar. Hoje acordei particularmente animado e ansioso pela madrugada, para que eu pudesse ver novamente a menina da bicicleta.

Quando finalmente a noite chegou, despertei-me e iniciei a minha rotina noturna; assisti o marido chegar em casa, jogar as chaves na mesinha, tirar os sapatos, apagar as luzes e ir fazer qualquer outra coisa. Assisti impaciente a paisagem quase sem se mover, exceto pelo balançar tímido das folhas das árvores nas frentes dos prédios, entretanto nada da bicicleta ou da menina.

O relógio já batia três e dezessete, eu já estava ficando frustrado, e nem entendia bem o porquê, quando de três e quarenta, ouvi de novo o barulho da bicicleta se aproximando.

Lá estava ela e o seu pedalar preciso e gracioso. Ela vestia uma calça dessas indianas e uma camisa vermelha, o que ao meu ver, não fazia sentido nenhum. As cores não combinavam, as estampas chamavam atenção demais e a camisa era muito folgada. Dessa vez ela demorou-se um pouco mais do lado de fora da minha janela, pois parou a bicicleta para beber água. Depois de alguns segundos, ela fechou a garrafa, guardou e voltou a pedalar. Então a menina da bicicleta se foi mais uma vez. Quando olhei o relógio, era três e quarenta e seis, porém eu não consegui dormir.

Fiquei pensando na menina da bicicleta, nos cabelos lindos que balançavam com o vento e curioso sobre o motivo do atraso hoje, se é que eu possa estabelecer um padrão, porque talvez ontem ela estivesse muito adiantada. De qualquer modo, não importa, pois amanhã eu – provavelmente, terei um padrão.

Adormeci na cadeira mesmo e acordei de seis e meia. Estava atrasado para o trabalho, mas a minha chefe teria que entender, visto que em seis anos, eu nunca me atrasei antes e mal faltei. Quando cheguei em casa do trabalho, continuei com toda a minha rotina, e quando a madrugada abraçou a minha rua com o seu corpo frio, eu esperei. Esperei muito. Até que amanheceu e ninguém havia passado pela rua, a não ser o marido do prédio da frente. Passei a madrugada inteiro acordado, e sem nada para fazer, saí mais cedo para o trabalho.

O dia inteiro me questionei sobre quem era aquela mulher, por que ela pedalava de madrugada, por que naquela rua e por que ela não seguia um padrão. Não consegui manter o meu foco em nada, eu estava intrigado demais com aquilo e tudo me parecia frívolo. E mais um dia no quarto, a madrugada caiu e as estrelas decoraram o céu. Eu, particularmente, aprecio muito mais o céu a noite do que de dia. Primeiro, eu tenho astigmatismo, então mesmo de óculos, olhar para o céu claro me dá dor na vista e meus olhos lacrimejam, segundo: nada se compara a um céu limpo, escuro e cheio de estrelas. As estrelas parecem letras de uma história não escrita e nem falada, entretanto, só quem repara no céu estrelado à noite, entende que é algo muito maior do que nós podemos contar ou imaginar, porém toda a infinitude do Universo se abriga no céu estrelado e negro.

Passaram-se três horas e de quatro e um, a menina de bicicleta voltou a pedalar pela minha rua. Hoje ela vestia uma calça preta e uma camisa branca larga, e enquanto eu a assisti pedalar por dois minutinhos à medida que o som da bicicleta se dissipava no vento, pensei que aquilo não era mais o suficiente. Aqueles dois minutos de apreciação e um dia inteiro de curiosidade, não pareciam o suficiente.

De repente tive a ideia absurda de ficar na portaria do prédio, esperando a hora que ela passasse, para que eu abrisse a porta e a cumprimentasse. Talvez um “Oi!”, acho que não soaria estranho – pensei sozinho. Então, fui dormir.

Quando a madrugada desceu de novo no quinto dia, corri para a portaria com algumas revistas, um livro, o meu celular e um fone de ouvido – eu precisava estar preparado para o tédio das horas a seguir – para esperar pela mulher da bicicleta com senso de estilo questionável. Enquanto eu aguardava ansioso, lia um livro qualquer sobre inteligência artificial, ouvi de longe o barulho da bicicleta, então corri até a porta, abri e fiquei na calçada em pé, com todos os músculos – principalmente os dos ombros – rígidos.

Quando a mulher me viu, acho que ela se assustou, pois foi diminuindo a velocidade e esfregou os olhos, como se aquele homem ali parado não fosse real. Desconfiada ela parou a bicicleta a uns dois metros de distância. Os seus olhos não paravam de me analisar. A voz firme da mulher me deixou um pouco inseguro, além da situação toda ser desconfortável e inédita na minha vida.

Depois de um curto período de silêncio absoluto e análises, ela perguntou com rispidez:

– Quem é você?

– Meu nome é Antônio, e o seu?

Ela permaneceu calada, os seus olhos estavam semicerrados e a boca comprimida. As suas mãos estavam brancas com a força que ela segurava a bicicleta, e o seu corpo enrijecido. Talvez a mulher estivesse se preparando para pedalar com força e rapidez para longe dali. Ela estava com medo. Mas é claro que estaria, oras! Um homem parado, em frente a um prédio, de madrugada ao que parecia, estar esperando por ela. Ela estava certa em ter medo! Portanto, me expliquei:

– Calma, calma! Não vá agora! Não vou fazer nada com você! – Falei apressado e enrolado, com medo que ela fosse de fato embora, pois eu tinha chegado muito perto de conhecê-la.

 – O que você faz essa hora na rua? – Perguntei, abaixando os meus braços e pondo-os para trás.

Ela não respondeu. A ausência de respostas dela me deixava mais aflito do que a situação toda, eu tinha medo de sua reação e do que ela estava pensando sobre mim. O meu coração batia muito rápido, e internamente eu pedia para que ele fizesse silêncio, com receio de que a mulher talvez até pudesse escutar o meu desespero, mesmo através de tantas camadas de nervos e peles. Então tentei contornar toda aquela situação chata, e comecei a me explicar.

– Bem… Eu tenho insônia, logo todos os dias eu passo as madrugadas acordado olhando pela janela. Faço isso há três anos, porém essa semana foi a primeira vez que te vi andando de bicicleta por aqui, e esse fato me deixou intrigado, por isso que hoje eu desci para falar com você, não sei… Te conhecer.

O rosto da mulher não perdeu a firmeza, porém adotou também uma expressão de confusão. Parecia que a sua boca procurava por palavras, mas ela estava hesitante, o seu corpo continuava enrijecido e os seus olhos, focados nos meus, queriam facilitar o trabalho da mulher e falar por si, contudo ela respondeu, e quando fez isso, toda tensão do seu corpo saiu com as palavras.

– Ana. O meu nome é Ana.

– É um nome bonito… – ela me atrapalhou quando eu ia puxar assunto.

– Eu preciso ir agora. – Ana puxou o pedal para trás e depois para frente, começou a pedalar e foi. Mais rápido do que eu demorei para formular a próxima frase.

Fiquei parado alguns segundos na calçada, perplexo com o que acabara de acontecer, mas logo entrei, recolhi minhas coisas e subi para dormir.

Passaram-se horas, todavia eu não consegui dormir. Cheguei no trabalho cedo demais, mais uma vez, e não consegui me concentrar em nada. Cheguei em casa, dessa vez não consegui dormir mais cedo para acordar mais tarde, como eu sempre fizera. Não consegui fazer nada da minha rotina e isso me causou uma amargura e uma tristeza que nem posso mensurar, pois pela primeira vez em tantos anos, eu me sentia confuso, perdido, nervoso, sem conseguir executar os meus planos.

A madrugada chegou, e não trouxe consigo o meu sono, muito menos a mulher da bicicleta. Enquanto eu não consegui dormir de novo, lá fora as rotinas alheias continuavam, ninguém parou. Todos permaneceram seguindo a continuidade do tempo.

O dia amanheceu e o sol ria da minha cara num tom de deboche. Tomei banho, café e fui trabalhar mais um dia. Como das vezes anteriores, fui cedo demais. Isso estava acontecendo com tanta frequência, que eu me perguntei se isso estava se tornando um novo hábito, entretanto não me permiti refletir muito sobre isso.

Quase três meses passaram-se, e a minha rotina continuou descontrolada, permaneci confuso, sem entender o motivo.

Até que numa noite dessas, quando a madrugada caiu e logo em seguida o sol estampou na minha cara que eu sou patético, eu não quis ir trabalhar. Passei o dia inteiro na cama lendo, ouvindo música, assistindo e comendo. Com o natural passar das horas, a madrugada novamente chegou. Dessa vez eu procurei no quarto ao lado a minha bicicleta novíssima, que eu comprara há dois anos, mas só usei 12 vezes, peguei-a e saí por aí.

Eu não tinha reparado que esqueci de olhar as horas, apenas saí.

Quando eu lembrei que não sabia que horas eram, entrei em pânico. O meu corpo inteiro tremia, os meus olhos estavam tão marejados que a minha íris quase se afogou nas minhas próprias lágrimas. O ar me faltou e eu senti como se tivesse sido embrulhado a vácuo.

Então eu fechei os meus olhos, aquilo já me havia acontecido, talvez dessa vez eu pudesse controlar. Disse a mim mesmo que não importava a hora, não agora. Permaneci de olhos fechados, então puxei um pedal para trás; um para frente, firmei os meus pés nos dois, dei o impulso e comecei a pedalar. Pedalei uns trinta segundos de olhos fechados, até que eu abri e tudo se movia tão graciosamente ao meu redor. Naquela madrugada, eu me senti livre. As estrelas se juntaram no céu e fizeram um poema sobre liberdade para mim. A noite me abraçava, e dessa vez o toque era morno e aconchegante, quase que maternal. Aquele era o meu momento, eu estava no controle. Era a minha hora, e o relógio não importava dessa vez.

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