A boemia crua da cidade refletida em Bella Kahun

Naquela mesa ele juntava gente
E contava contente o que fez de manhã
E nos seus olhos era tanto brilho
Que mais que seu filho
Eu fiquei seu fã”


Naquela Mesa – Nelson Gonçalves


Clássicos como “Naquela Mesa”, de Nelson Gonçalves, e tantas outras canções de personagens da música boêmia foram os primeiros a entoar a vida de Bella Kahun. Seu pai, Alexandre, apresentou o mundo da arte quando a cantora e compositora era ainda muito criança. Aos 13 anos Bella já acompanhava o Sr. Kahun – a quem ela considera o maior artista do Brasil – em apresentações nas noites de Garanhuns, no interior de Pernambuco. Como quem se apaixona pelo seu primeiro amor, Bella viu crescer dentro de si a urgência de colocar pra fora tudo que sentia. Algo que no início era visto como diversão, se tornou uma paixão. Assim surgia a compositora e, mais tarde, a cantora. 

A arte, para mim, veio da composição e dessa vontade de me fazer em forma de canção e poesia. Ela sempre foi para mim algo muito natural, até antes de eu saber que fazia arte. A música é como se fosse minha outra metade, pode até soar estranho mas é sério. A gente se dá muito bem. É o meu grande amor. A vida boêmia é algo que me chama, que me encanta, que me cativa. É o que eu sinto que nasci pra fazer”, comentou Bella.

Hoje, aos 19 anos, depois de muitas apresentações em bares e eventos culturais feitos ainda na adolescência, Kahun estreia seu primeiro álbum, intitulado Crua, que sai pela gravadora olindense PE Squad. A cantora, que ora flutua entre as colinas de Garanhuns, ora vibra nas ladeiras de Olinda, enxerga que a experiência de resistir e fazer arte no interior de Pernambuco traz influência cotidiana no seu modo de se expressar. “Eu acho que se eu não fosse de Garanhuns, eu não seria a artista que eu sou hoje. Eu não saberia trabalhar da forma como eu trabalho, precisando me virar nos 30 da forma como eu me viro. Fazer arte aqui fez com que eu amadurecesse muito e que eu crescesse vários anos em um curto período de tempo”, explica Bella.

Trazendo a tona as dificuldades de promover uma arte única em localidades distantes da capital, Bella fala sobre a falta de incentivo que a própria comunidade ainda encontra por parte dos próprios moradores. “Essa desvalorização me afetou muito, porém eu sou muito grata, porque se aqui existem artistas que são capazes de fazer coisas, eu vou trabalhar com eles. Essa cidade tem uma safra cultural imensa. Eu sinto que eu não preciso do título de representante garanhuense, porque por si só, ela já se representa e é representada por artistas maiores do que eu. Só que o que eu espero, por ter ela como inspiração e como raiz de toda a minha obra, é que eu possa mostrar que no interior existe arte e existe talento”. Bella também enfatizou que sua ideia maior e principal é mostrar que há muito mais do que as pessoas acham que existe no agreste.

Foto: Reprodução/Divulgação

No dia a dia ela toca mais do que ouve. Mesmo assim, a intérprete de Lance Casual (2019) se deixa imprimir no modo de viver de artistas de diferentes gerações. A vontade mesmo era de ser amiga de Elis Regina e Gal Costa, e parente de Nelson Gonçalves. “Eu acho bonita a forma como Elis interpreta, acho belíssima a forma como Nelson descreve a tristeza, a paixão e o desejo. Eu tenho como inspiração essa sinceridade deles. São artistas que me transmitiram muita verdade durante o meu processo de amadurecimento artístico”. 

Para além de ídolos, Kahun também desenvolve sua sonoridade ao ver seus amigos. 

Me inspiro nos meus amigos, atores, tatuadores, artistas, sabe? Essas pessoas me inspiram por trabalharem com arte e que se dedicarem a isso. A gente vive em um cenário político que não nos valoriza, além do mercado que só nos dá apoio se a gente já estiver com um certo reconhecimento”

Provocando um gosto do que o Crua vai abordar, Bella lançou, no último dia 11, o videoclipe de Sorte. A canção produzida por Mazili é o primeiro ato da trilogia que acompanha o lançamento do álbum. Estrelado por Bella e Talula Mayim, drag de Álefe Passarin, o clipe, dirigido pelo cineasta pernambucano Rostand Costa, foi filmado na terra natal de Bella, e traz cenas de flerte e uma dança envolvente entre as duas personagens.  

E vou de noite em noite
E de gole em gole
Elas me olham sem parar
Eu assumo, gosto muito, dessas novas tentativas de acertar 


Sorte – Bella Kahun (2020)


A trilogia vai contar ainda com os videoclipes de Boêmia e Cabaret, que vem ao mundo no dia 02 de outubro, falando sobre um amor que já não tem mais jeito de acontecer. Inicialmente o projeto seria lançado em forma de EP, mas a ideia foi se revelando e tomando uma grandiosidade capaz de se transformar em um álbum com 10 canções.

O Crua era uma ideia da minha cabeça e, aos poucos, foi tomando forma. Ele ainda não tinha nome, nem a maioria das músicas que estão no disco. Eu fui vivenciando tudo no ano de 2019. Foi o meu marco de compor, de sentir, de crescer, de amadurecer. Foi um misto de sentimentos e a minha fonte de escapatória foi minha composição” 

O trabalho com a PE Squad foi e é indispensável. O álbum, que tem a capa e contracapa projetadas pelas artistas Bea Simões e Niê Fagundes, revelou algo grande na vida compositora e toda a essência do projeto conseguiu ser captada. Crua é Bella Kahun.

O Crua é também todo o time que participou do desenvolvimento da obra.

Trabalhar com essa área artística, que sempre me abraçou e que fez com que eu me identificasse no meio me deixou super contente. Parei para pensar durante a produção dos clipes, quando Vinn escolhia as roupas, quando MV me maquiava, quando Taís arrumava o meu cabelo, e pensei em como tenho pessoas tão boas, que não trabalham só por elas, mas que querem me ver bonita, sabe? Eu sinto que tenho uma dívida enorme com os artistas que trabalharam comigo”, comentou Kahun, se referindo à equipe de produção dos seus videoclipes, formada por artistas LGBTQ+ moradores do agreste.

Bella e as artistas Bea Simões e Niê Fagundes, durante o processo de concepção do álbum. (Divulgação/PE Squad)

Eu trabalhei com drag, com travesti, com não-binárias, com pessoas próximas a mim, que também não me veem como um gênero ou como uma orientação, mas como artista. Livre pra ser o que eu quero ser. Então, trabalhar com essa liberdade e dar essa liberdade para elas, fez com que o projeto ficasse lindo. Eu não represento a classe porque eu não quero pink money, mas essas pessoas são drasticamente parte de mim. Eles me deram a visão do que eu posso ser. E me dá mais orgulho ainda, por serem do interior pernambucano. Tenho muita gratidão a eles, em nome de toda PE Squad”, finalizou Bella.

Bella e a equipe da PE Squad. (Divulgação/PE Squad)


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