Foto: Matheus Melo

Made in Pernambuco: Flaira Ferro, uma experiência humana em construção

A arte lhe levou para a dança; a dança lhe levou para a poesia; a poesia lhe levou para a música e a música lhe levou para o universo. Com a cabeça nas nuvens, mas os pés fincados no chão, aqui observaremos o nascimento, os primeiros passos e a constante expansão da uma artista que, desde muito cedo, se entregou para tudo aquilo que a arte poderia lhe oferecer. Eis a arte de Flaira Ferro.


Com colaboração de Aline Luna.

Numa quinta-feira, dia 9 de julho desse mesmo ano de 2020, algo de bom teria que acontecer. Eu e Aline nos encontrávamos mega ansiosos numa sala virtual do Zoom. A razão? Iríamos entrevistar a muito única Flaira Ferro. E como grandes fãs que somos, sentir um nervosismo é mais do que humano. De forma muito sensível, verdadeira e poética, durante a conversa, Flaira compartilhou conosco uma série de experiências que refletem, em diversas formas, as maneiras de ver e viver a vida. Passeando por uma existência que se afirma em apenas uma coisa: arte.

Por coincidência ou não, Flaira Ferro nasceu em época de carnaval, criando imediatamente uma ligação com a magia da cultura carnavalesca. Filha de foliões, desde cedo teve todo o apoio da família para ingressar no mundo das artes, imergir na cultura e desenvolver suas habilidades através de aulas nos centros culturais do Recife. No entanto, diante de um universo de possibilidades, a pequena artista se apaixonou logo pelo frevo. Essa dança ampliou os horizontes de Flaira, seja por motivos de ordem social ou artísticos. O que importou, no final das contas, foram as revoluções, internas e externas, que o frevo lhe proporcionou.

Minha relação com a arte vem com a dança, como passista foliã, brincando os carnavais. Foi o frevo que me pegou e me fez entender que iria ser artista. Faço aniversário no período carnavalesco, também, então cada ano da minha vida foi comemorado em meio a essa festa, que não era só minha, mas era do povo, da cidade

 Crescer em meio aos passistas foi fundamental. Não apenas para sua formação artística, mas para seu entendimento pessoal, de olhar para o próximo sem julgar e, além do mais, viver tudo aquilo que acredita. É nesse momento que Flaira comenta sobre a diferença na realidade de cada indivíduo, e como a arte é capaz de unir as pessoas. Ela lembra das vezes em que dormiu nas casas das coleguinhas de dança, que ficavam nas comunidades, com uma vida totalmente diferente da dela e como isso mudou sua relação com seu meio. Além disso, fez questão de lembrar do seu mestre, um dos maiores nomes do frevo, Nascimento do Passo, um verdadeiro exemplo de expressão e de resistência.

 Eu tive uma relação muito emocional com a dança, cheia de memórias e nostalgia, mas tive um entendimento social muito grande por meio dela, também. Isso, mais pra frente, foi moldando meu caminho para a música, sendo aí a questão de entender a sonoridade como um gesto. (fazendo gestos de como se estivesse brincando com massinha) Eu fui me construindo nesse Barro. (sorri)

 Diante da turbulência de uma vida artística, ainda mais sendo levada por alguém tão jovem, Flaira ainda achou uma forma de se reinventar. Por acreditar em seu trabalho e ter a arte como companheira desde sempre, ela conseguiu. Primeiramente, com o frevo lhe mostrando que poderia ser artista e conseguir ter sustento a partir de sua expressão. Com o tempo foi capaz de enxergar que, além do sustento, o frevo lhe sugeriu a música, abrindo novos caminhos para a atual cantora. A artista, que sempre gostou de fazer poesia, enxergou a música como uma forma de “falar coisas que somente o corpo não podia”, nas palavras dela. 

Eu sempre me interessei pelas artes integradas. Ou seja, sempre gostei da poesia que nasce da dança, da dança que produz uma música, da música que inspira o silêncio, o silêncio que traz a meditação, a meditação que me faz entender a vida de forma mais subjetiva. Eu sempre busquei enxergar as coisas dessa forma. A ancestralidade, a nostalgia, a memória, etc…tudo isso passeia pelas coisas que produzo”

Foto: Mary Gatis

Quem me ajudou a fazer essa matéria foi Aline Luna, minha parceira de jornalismo e outros crimes por aí. Além do mais, Aline acompanhou a entrevista junto comigo e fez perguntas essenciais para a elaboração desse texto, portanto não pude não incluí-las aqui. Enfim, sem mais delongas, vamos ao bate-papo:

Revista Jambo: E vamos de arte! Você já tem contato com o universo artístico desde muito pequena, fosse pelas suas aulas de dança ou participação em projetos. Como que surgiu esse interesse por arte ainda tão nova?

Flaira Ferro:  Ah, foi a alegria (risos)! Acho que como eu era muito nova, tinha só 6 anos, o sentimento de alegria foi o que despertou interesse. Eu lembro que pedi, de aniversário, pra minha mãe me levar no Galo da Madrugada, uma coisa que eu via pela TV e achava o máximo! Mas quando eu fui ver aquilo na rua, fiquei muito mais encantada. O carnaval, para a criança, é um universo muito lúdico, justamente porque elas vêem as pessoas em um estado muito fora do comum. Então, existe uma energia diferente na festa carnavalesca em que as pessoas estão vestidas de outras coisas, e isso para as crianças é um atrativo. Você vê, é so brincar com uma criança de 5 ou 6 anos, que ela vai querer se vestir de super herói, de pantera…vai querer ser outra coisa. Então essa ideia de ser quem eu quisesse, graças ao carnaval, foi algo que me atraiu de imediato, desde pequena. Também não foi algo calculado, afinal nada na vida acontece certinho e como a gente pensa. Minha mãe percebeu a minha predisposição para a dança e me matriculou na Escola Municipal de Frevo, onde conheci Nascimento do Passo, meu mestre. Foi lá onde tive aulas com ele e entrei em contato com outras realidades, muito diferentes da minha. A partir daí, comecei a estudar a dança, participar de concursos e até ganhar prêmios, viajar pelo país e pelo exterior, dançando e mostrando minha arte pro mundo. E eu fazia tudo isso sem pretensão alguma, não pensava em me tornar uma Ana Botafogo da vida, nem nada (risos). Fazia porque gostava de dançar e aquilo me movia, me fazia bem. Até que eu percebi que isso poderia ser uma profissão, quando comecei a receber cachê, participar de festivais ou ser chamada para dar aulas. Nessa hora eu pensei ‘Poxa, isso pode ser minha vida’, e foi mesmo! Percebi que ser artista está além dos moldes de uma profissão quando trabalhei com Antônio Nóbrega. Mesmo sem ter feito uma faculdade ou nem ter se profissionalizado formalmente, Nóbrega consegue ser o grande artista que é até hoje.”

Jambo: O frevo tem um elemento marcante que é a alegria. Porém, a gente não pode negar todo o histórico de revolta e resistência por trás do seu surgimento. Onde que tá essa parte da história do frevo?

Flaira: “Então, a alegria do frevo existe. O carnaval de rua contempla a alegria do povo. Mas para que o frevo se tornasse o que é hoje, houve todo um processo de muita luta e muita opressão. Basicamente, toda a temperatura que fervia o Brasil no séc. XIX serviu para que as classes trabalhadoras e os escravos recém libertos começassem a tomar consciência de sua cidadania, resolvendo se afirmar através de clubes que saiam no carnaval. O Brasil, na época, estava à beira da revolução industrial, tinha acabado de se tornar república, acabara de abolir a escravatura e via surgir uma nova classe de trabalhadores, muito pouco valorizados. Além do mais, o êxodo urbano estava em alta e movimentos culturais dos negros, como a capoeira, passaram a ser proibidos. Então é isso, o frevo vai surgir nos carnavais dessa época para incluir essas classes na festa de rua, também. […] Eu traço muito um paralelo entre essa época e os dias de hoje, também cheios de levantes sociais e muita luta contra as ideologias fascistas que nos governam. Então, para que haja uma transformação, de fato, algum tipo de conflito terá que acontecer. Não foi diferente com o frevo.

Jambo: Um pouco antes você falou de como a arte é capaz de expandir horizontes e conceitos sobre sociedade. Na sua opinião, no momento em que vivemos agora, onde há uma falta de sensibilidade em relação a entender o próximo, a arte ainda tem esse poder de transformar as pessoas? 

Flaira: Eu acho que a nossa natureza é muito ampla… O ser humano é muito cheio de contradições. Cada espécie tem a sua impressão digital, sua pequena parte diferente, nem uma flor da mesma planta, quando nasce, é igual à outra. Cada ser humano tem uma forma diferente de enxergar a vida, e eu, tendo contato com diferentes realidades desde cedo, acabei ampliando meu olhar sobre o ser humano… enriqueceu mesmo. Acho que uma visão pluralizada da vida, além do que é nosso, acaba fertilizando um terreno maior para a empatia. Mas isso não significa que uma pessoa que nunca viajou ou passou a vida no próprio quintal não possa entender o que é diversidade, também. Penso muito nos poetas cantadores da Zona da Mata [de Pernambuco], que, mesmo nunca saindo do lugarzinho deles têm uma capacidade de criação absurda e uma sensibilidade muito única. E foi a arte deles que proporcionou isso, né? A arte é transformadora, sim! Ela é essa fenda que rompe com a lógica de um cotidiano fechado, que leva a gente a transcender a ordem e entender que somos partículas do mesmo universo. Porque assim, né? Abrir os olhos para a nossa existência é entender o outro como igual, é um despertar para a sensibilidade, nos faz entender o que é transcendência, mesmo. Ai, não sei, to muito viajada hoje, gente! (rimos juntxs) Mas é isto,sem arte a gente se mecaniza muito. Compreender a arte é compreender a nossa existência. É saber que a gente poder ser tempestade, calmaria, água, ar, fogo… é transcender a ordem!

Jambo: E falando em transcender a ordem, quando foi que você entendeu que precisava se reinventar, primeiro como dançarina? 

Flaira: Um ponto muito forte na dança, que eu ja vinha sentindo, era a necessidade de me aprofundar mais nas minhas questões existenciais que somente a alegria não tava mais comportando. Fazer o frevo, representar aquela alegria atrativa em momentos em que eu não necessariamente me sentia feliz não contemplava muito minhas buscas. Como eu ia dar alegria num dia que eu não tava bem, sabe? Então isso começou a me esgotar, somado à uma série de questionamentos que eu comecei a fazer, do início da adolescência até a vida adulta. Aquelas coisas né, o que é dançar, o que é viver, o que é morrer, o que é tristeza, o que é alegria… então eu comecei a questionar muito a minha existência juntamente com a dança. E, dentro dessas questões, eu ainda machuquei o joelho, o que me fez ficar quase um ano sem dançar. Esse período foi o meu maior momento de resignificação, foi quando eu parei e percebi que precisava reinventar minha dança para algo que atendesse aos meus questionamentos. Então comecei a ler livros, assistir vídeos e ouvir artistas com um objetivo a mais, de conseguir me superar de outra forma. Porque é assim, né? Os questionamentos mudam e as resoluções também mudam junto. Então eu fui buscando outras formas de poder me expressar, indo até além da dança. Nesse processo de busca por reinvenção, me encontrei muito interessada por filosofia, o que levou para a poesia e o desejo de começar a falar mais. Então eu pensei: ‘Nossa, como é que eu danço algo que preciso falar?’. Eu precisava mesmo me expressar de outra forma, que primeiro foi a poesia. Logo depois, senti a necessidade de cantar (empolga-se). 

Jambo: Então, pra você, existem coisas que só pela dança não dá para comunicar? 

Flaira: Eu acho que tudo está a postos para qualquer interpretação. Existem muitas formas de se comunicar a mesma coisa, e essas formas dependem de cada indivíduo. Uma pessoa pode representar o que quiser, seja pela moda, pela pintura, pela maquiagem, pela dança, pelo corpo… eu acho que as linguagens têm que tá a serviço da gente mesmo, sabe? Cada ferramenta vai existir para que, de alguma forma, a gente se encontre com a nossa própria verdade, pelo menos é assim que eu penso. Eu senti que a dança já não me dava mais o que eu precisava naquele momento, então eu fui direto para a poesia, e da poesia para a música. De certa forma, o que me move para continuar escrevendo é o meu interesse por terapias holísticas, física quântica, a idéia de que estamos conectados sempre com a Terra e que somos um pouco de cada coisa que ela nos dá… eu tenho pirado muito nisso ultimamente (risos). Então assim, tudo é muito momento, a gente tem que tá sempre aberto para nos ouvirmos e atender nossas próprias necessidades. Mas claro, tendo sempre a certeza do que é realmente bom pra a gente.

Jambo: Algo que é muito notável nas suas músicas, nos seus álbuns…é a constante tradução de sentimentos em palavras. Qual a sua técnica para fazer essa tradução? 

Flaira: Eu tenho um trabalho de auto observação constante. O meu estudo de vida, onde eu gasto mais tempo e minhas energias, é observando minhas emoções. Eu me interesso muito em entender quais são os gatilhos que me levam a sentir raiva, quais me trazem amor, me despertam esperança ou os que me encaminham para o medo. Eu fico querendo saber o que é isso, o que é um sentimento que chega e atravessa a pessoa. E dentro desse processo, eu entendo muito a importância de ter uma disciplina que faça a gente estar disponível para essa percepção. Por exemplo: eu tenho muito cuidado com minha alimentação, eu gosto muito de consumir coisas que acendam a minha energia vital. Eu tenho uma relação muito atenta com meu estado de espírito, um autocuidado muito grande, porque se eu quero perceber como meu corpo e minhas emoções funcionam, é importante que eu não crie mecanismos de distração. Fico sempre atenta ao que me leva para uma autodestruição ou o que incentiva meu processo criativo. Através da observação da minha estrutura, eu cuido da minha força vital. Observar minhas emoções é minha prioridade, e o fato de eu estar em constante observação, faz com que eu compreenda melhor e consiga falar sobre isso. A compreensão de como modular a energia do próprio corpo e como pilotar essa nave é o que me interessa.

Jambo: Em relação ao seus álbuns, o “Cordões Umbilicais” e o “Virada na Jiraya”, é muito notável a diferença entre os temas e temperaturas dos dois trabalhos. Como se deu o processo de composição deles? 

Flaira: O ‘Cordões Umbilicais‘ se deu entre os meus dezoito a vinte e dois anos, que foi uma idade de compreender algumas afirmações, do que eu queria viver e fazer. O disco foi que fez essa transição, de uma imagem que eu tinha só da dança, e me fez ir para a música. Ele veio como um mergulho de cura e de buscar compreensão, uma necessidade. Ele é mais existencialista, mais íntimo e auto reflexivo, algo mais dentro do casulo. A criação foi dada nesse período, que também foi na época em que machuquei meu joelho, fui para São Paulo,  fiz meu primeiro solo de dança contemporânea. Além disso também estava indo para a faculdade, começando a me interessar mais pela vida noturna. Então, foi um período em que eu estava buscando compreender a realidade e a mim também. A música foi a forma que eu encontrei para expressar isso. Já no segundo disco, o ‘Virada na Jiraya‘ eu não estava mais naquele lugar do embrião, eu estava com outra necessidade muito mais política. De compreensão em como as decisões políticas afetam a nossa forma de existir. Nisso, o feminismo foi algo que entrou forte em mim. De ganhar consciência que estar ali segurando um microfone e falando o que eu penso, sinto e desejo já é um ato político, em me compreender como agente político da vida. Eu também estava fazendo vários shows com ‘Cordões Umbilicais‘, então aquilo foi mobilizando muitos insights para vir o ‘Virada na Jiraya‘. Ele veio mais combativo, sarcástico, com uma pegada mais elétrica, um negócio mais rock n’ roll. São os momentos, sabe? Acho que o próximo disco que eu for fazer talvez vai estar em outra temperatura (risos). Eu fico achando que ‘Cordões Umbilicais‘ foi o despertar, o ‘Virada na Jiraya‘ foi a revolta, a rebelião e talvez o próximo disco venha num lugar mais assentado, menos barulhento, mais tranquilo, ou não (risos). Tudo depende do que acontecer nessa vida.

Jambo: Diante de tanta arte e expressão criada por você, a gente só tem a agradecer mesmo. Sempre bom lembrar que nosso corpo é perecível, mas o que a gente faz no mundo é o que fica. Então, como artista e pessoa, o que você pretende deixar no mundo? 

Flaira: Eu vou usar uma fala de Déa Trancoso, que diz assim: ‘eu quero morrer feliz. Eu quero morrer sorrindo’. Se eu tiver no caixão com um sorrisinho assim, já me dei por satisfeita (afirma, ao estampar um sorriso de ponta a ponta no rosto). Pela possibilidade de ter transcendido as minhas próprias barreiras. Eu fico pensando que quero chegar no fim da vida me percebendo alguém que fez um caminho de transformação das próprias limitações. Saber que pude olhar para as minhas sombras e pude atravessar elas, e ressignificar. Saber que eu pude mover relações de amor com a minha família e amigos. Que pude contribuir de alguma forma para despertar ou inspirar alguém de alguma forma. Eu acho que com isso já valeu, eu não quero nada mais do que isso. Sentir que eu pude me superar, me transformar dentro dessas limitações e me tornar cada vez menos corpo e mais alma, para fazer a transição bacana e não virar alma querendo ainda estar no corpo.

Jambo: E, pra finalizar, bem rapidinho: Quem é Flaira Ferro? 

Uma experiência humana em construção (risos). Eu sou isso, uma experiência encarnada aqui em constante construção de vida e de morte”

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