Dani Carmesim: a revolução de rasgar o arquétipo do rock’n’roll

Considerado por muitos como morto ou esquecido, o rock’n’roll acaba por, diversas vezes, se manifestar não só como vivo, mas como renascido e renovado. Em conversa com Dani Carmesim, mulher, negra e acima de tudo artista, podemos desvendar melhor esse lado do rock.

Mesmo que a música seja a arte responsável por tornar o período da pandemia mais ameno e menos impactante, não tem sido nem um pouco fácil para artistas escanteados pela grande mídia. Em meio a uma período onde o espaço para artistas independentes tem sido praticamente suprimido, com o gosto musical do brasileiro médio dificilmente ousando em sair do eixo principal da grande mídia e onde muitas pessoas nem mesmo podem se dar ao luxo de reservar algum tempo pra arte, já que a preocupação maior é, compreensivelmente, a sobrevivência; junte isso à revolução do streaming e assim fica evidente a batalha travada por Dani Carmesim, artista independente conquistando espaço em meio a tantos na cidade do Recife. Há dez anos em atividade, mesmo em um período tão espinhoso, a roqueira não demonstra nenhum pudor em criar o seu som da maneira que mais lhe pareça interessante, unindo o rock’n’roll a sonoridades mais pernambucanas.

Caio: Eu ouvi bastante as suas músicas, mas me fala um pouco sobre você. Quem é Dani, segundo a própria?

Dani: Dani Carmesim é uma cantora e compositora pernambucana que faz um trabalho autoral, independente e alternativo desde 2011 e que tem como objetivo utilizar sua música como espaço de representatividade. Estimulando a valorização da mulher negra dentro do mercado fonográfico, principalmente no segmento de rock, fazendo isso, principalmente, através de composições sinceras, viscerais, realistas e até autobiográfica.

Caio: Como é ser um artista independente pra tu? A gente sabe que é complicado às vezes, para lançar, promover e tudo mais. Nem sempre o grande público está aberto a artistas independentes.

Dani: Essa resposta é muito complexa, mas enfim… Com o declínio das gravadoras os artistas tiveram que se reinventar e se readaptar a esse novo cenário. Sabemos que algumas gravadoras trabalhavam de forma predatória para os artistas, levando para o grande público um “produto final” que muitas vezes, não fazia jus o que realmente o artista gostaria, muitos perdendo por completo a essência do seu trabalho. Essa independência trouxe para o artista uma liberdade de construir um trabalho com a essência desejada, mas também trouxe várias responsabilidades, que outrora (com as gravadoras) o artista tinha a função apenas da construção da sua música (claro, com exceções) e ficava a cargo da gravadora de construir caminhos para que essa música escoassem.

Hoje, além de ser responsável pela construção da sua música, o artista também tem a responsabilidade de construir esse caminho: ser seu próprio produtor, financiador, assessor de imprensa e etc. Esse caminho é árduo, muitas vezes o retorno financeiro não vem, mas a gente insiste!

Caio: will.i.am disse algo parecido. Que no futuro, os artistas fariam parte de todo o processo criativo, desde a produção até a sua distribuição. Você acha que a era do streaming tem um papel importante nisso? Até mesmo no sentido de remodelar a maneira que a música é feita e distribuída.

Dani: Com certeza. Esse novo formato em que a música está sendo entregue ao público tem um papel muito importante nessa transformação. Ainda sinto que alguns estão mais acostumados a adquirir música em sua forma física, como LP, CD e cassete, que eu gosto muito; que além de apresentar uma qualidade melhor, oferece a quem consome uma outra experiencia, sem a exigência da velocidade do streaming. Mas o streaming trouxe uma experiência de ter acesso a um clique, havia coisas que para ouvir, tínhamos que garimpar, e que muitas vezes nem chegavam aos nossos ouvidos. E para o artista independente, o streaming consegue atravessar fronteiras, enquanto o modelo físico se torna quase impossível de chegar, em lugares que nunca pisamos e nem imaginamos. Mas há uma nova fronteira, que são os algoritmos; outro assunto complexo! (risos)

Caio: Eu tava ouvindo as tuas músicas e queria saber quais são as suas referências musicais. Quem te inspirou, sonora e esteticamente, desde que você começou a cantar?

Dani: Eu sempre insisto em afirmar que a base da minha música é o rock, mas pra ser mais precisa, é a essência do rock, que nos permitem experimentar vários sons. Sou fã da Gal Costa, Rita Lee, Secos e Molhados, Letrux, Norah Jones, Nina Simone… São várixs, que acho que não caberão nessa resposta. (risos) Mas também não posso esquecer de falar dos artistas pernambucanos, como Chico Science e Nação Zumbi, Mundo Livre S.A., Otto, Comadre Fulozinha, Isaar. E por sinal, a Isaar me inspirou não só musicalmente, mas me deu referência de estar em cima de um palco fazendo música. A música sempre foi ocupada majoritariamente por homens, e quando se tinham mulheres, eram vistas em segundo plano e ainda tinham que ter características estéticas padronizadas para atender um mercado.

Por isso acho importante a representatividade, pois, ao ver uma mulher negra e gorda, vi também que era possível fazer o que mais gosto: música. Obrigado, Isaar!

Caio: Quanto à representatividade, é obrigatório e essencial discutir. Fica muito evidente que a música mainstream exige um apelo estético, que muitas vezes acaba por não só mascarar músicas de qualidade regular, quanto como exigir de mulheres padrões estéticos fora do que elas realmente deveriam ser: elas mesmas. Torna-se mais importante desenvolver a música para uma embalagem estética do que criar a embalagem para a música em si. Tem algo na tua discografia que discuta isso?

Dani: No meu novo disco, com lançamento planejado para esse segundo semestre, irei trazer várias músicas nessa temática de forma clara; mas sempre coloquei nas minhas músicas essa discussão, só que de forma sutil. No meu segundo EP Tratamento de Choque (Desconstruindo a Imagem Ideal), de 2012, eu trazia uma desconstrução, tanto na música quanto no visual. Era justamente a tentativa de desconstruir um rock enlatado, mas era (des)construído justamente por uma mulher negra, gorda, periférica, pernambucana com bastante sotaque (adoro meu sotaque), fazendo rock e explorando vários ritmos dentro daquela estrutura de 7 faixas.

Foto: Reprodução/Divulgação

Caio: Vai ter algo de mais experimental no teu próximo projeto, em relação ao que tu já fizeste? Queria saber também como os teus álbuns conversam entre si, se cada projeto é como um diferente mundinho, sonora e esteticamente, ou se eles são como capítulos, peças que se encaixam.

Dani: Sempre trabalho nos meus álbuns como um novo trabalho, com uma estética visual e musical que quis mostrar naquele momento, resultado de alguma inquietação. Sempre tentando ousar cada vez mais. Acredito que esse novo disco entrará num mundo que nunca pisei, adoro buscar novas roupagens musicais. É exatamente essa “liberdade” do mundo independente que mencionei anteriormente, que fascina o artista, sempre buscando ousar no seu trabalho. O que mais conversa de fato são as minhas composições, pois sempre abordo o cotidiano, me considero uma retratista do que eu vejo e o que vivo, podendo ser considerado até autobiográfico. Acredito que meus trabalhos conversam entre si, mesmo deixando claro a minha evolução enquanto musicista. Sou muito fã de discos específicos de artistas, poderia citar aqui o Little Broken Hearts da Norah Jones, com os timbres e toda ousadia musical, onde ela buscou novas nuances ou texturas musicais nunca explorada pelo seu trabalho. O disco foi produzido pelo Danger Mouse. Sou fã desse disco e até hoje escuto. E sempre recorro a assistir as apresentações ao vivo. Cara, é uma aula!

Caio: Me fala das tuas performances. Onde tu se apresentou e o que tu traz do conceito da música quando se trata do ao vivo?

Dani: Sempre me apresento em shows undergroud, onde comecei e tenho o prazer em contribuir com a cena. Mas também tive algumas oportunidades de me apresentar em grandes palcos da cidade e pelo estado, mas posso contar nos dedos (risos). Porém, essa falta de oportunidade em grandes palcos não me impediu de produzir e continuar o meu trabalho. Infelizmente, nos esbarramos na falta de estrutura na hora de apresentar um show ao vivo, essa melhor estrutura está mais condensada nos grandes palcos da cidade. Nos últimos meses antes da pandemia tocamos em palcos importantes, como o Sertão Alternativo, que foi em Afogados da Ingazeira, produzido por mulheres e com uma estrutura adequada de palco e para as bandas. Outro foi no IRAQ, um lugar menor, mas muito importante pra gente, onde dividi o palco com artistas emergentes nacionalmente, como Marcelle (SP) e Ilya (CE). O último foi na Torre Malakoff, onde realizei um dos meus sonhos, abrir um show para a Devotos (PE). E várias outras bandas conhecidas da nossa cena, como Plugins, o Cão e o Saga. Bandas essas que fazem parte do cenário musical undergroud, puxando pro som pesado, mais sempre viram meu som como rock e me abriram espaço. E sem deixar de comentar, foi muito importante, pois se tratava de uma representante mulher, negra e gorda, já que o evento Arte Transforma vinha debater também sobre a gordofobia.

Caio: E quanto a tua música de trabalho mais recente? Eu adorei o conceito dela, de algo cíclico. Por ter uma mensagem política bem explícita, ficou impossível de não lembrar de Maquiavel. Eu lembro que ele falava que a história costuma se repetir, diversas vezes.

Dani: Eu fiz essa música a partir das inquietações políticas, mas ela abrange muito mais: da humanidade em si. Agora mesmo, muita gente tá associando Loop Infinito à serie DARK da Netflix, que ainda não assisti. Mas foi tudo a partir de uma conversa com meu companheiro e baixista da banda, André Insurgente. Falando das pessoas pedirem a viver coisas de volta e lembrando de Marx, a história se repete como tragédia, e depois como farsa.

A música de Dani reflete claramente o estilo de vida, esperanças e frustrações de um artista independente, como um reflexo perfeito de como é ser um artista independente em 2020.

Caio: Isso acaba tendo a ver com a coisa do último álbum, não é? “Das tripas coração”. Adorei a capa dele, casou perfeitamente com o conceito.

Dani: Sim! Das Tripas Coração veio fazer a síntese do artista independente, fazer das tripas coração pra existir. Muita gente, como eu, precisa ter um trabalho formal, pra sustentar sua música, já que ainda não se tem um retorno financeiro. E quem assinou a arte do disco foi o artista plástico pernambucano Ganjja Pessoa, onde tem um trabalho muito conceituado, inclusive fez a capa do segundo disco do Di Melo. Realmente fiquei muito feliz por ele ter aceitado.

O capital responsável por financiar os projetos musicais, desde a gravação até a distribuição, parte da própria Dani, que lamenta que não haja mais reconhecimento, mesmo que seja a música a sua maior vocação.

Caio: Eu quero saber da Dani como pessoa. O que você faria se não estivesse na música?

Dani: Na verdade gostaria muito de trabalhar exclusivamente com música, me sustentar financeiramente da minha música assim como uma artesã vive do seu ofício. Infelizmente, tenho que ter um trabalho fora dessa área, para criar justamente condições de sustentar a minha música. Acabo ficando presa em um ciclo ou no loop infinito (risos). Como falo na minha música, O Ciclo (Das Tripas Coração): “Tudo começa no meu nariz se espalha em mim, vai pro pulmão/Veia, artéria, coração/Sai da minha boca cheio de mim/Ganhando o mundo/E entra em ti”

Caio: O que tu diria pra alguém pensando em começar a fazer música?

Dani: Eu diria principalmente para os cantores e compositores que procurem saber como arrecadar os seus direitos autorias sobre suas músicas e estudar mais sobre isso porque faz uma diferença monstra. Também diria que não fiquem esperando só fazer alguma coisa se passar em edital, isso jamais. Tem que conseguir ir tocando a carreira como dá e em paralelo ir tentando colocar projetos, fazer vaquinha virtual, enfim. E busquem fazer parcerias com outros artistas porque isso é bastante enriquecedor, além de que ajuda muito a juntar públicos, e isso é uma estratégia muito boa. Estudar formas de divulgar melhor seu trabalho nas redes sociais ajuda muito também. E claro, ser original, fazer tudo com muito amor e alma para que as pessoas sintam e vejam a sua verdade no seu trabalho, isso é que faz o artista ganhar mais do que fãs. E outra coisa fundamental, o artista tem que saber diferenciar o que ele quer fazer, se é arte ou entretenimento. No caso eu faço arte, se eu quisesse fama, grana aos foles, milhões de seguidores eu tava fazendo outro estilo de música e não rock and roll (risos).

Sempre citando referências à contracultura, Dani deixa claro que o rock’n’roll é mais do que um padrão americanizado. É um estilo de vida .

Caio: Segundo muita gente, o rock está morto. O que tu acha dessa afirmação?

O rock vai muito além de um gênero musical. Influência estilo de vida, linguagem, personalidade e até a moda. É preciso ter e entender a sua essência. Quando você identifica verdade na música de quem faz… Existem alguns artistas que não fazem o gênero rock, mas pra mim é puro rock’n’roll… Mas também existem artistas que são definidos ou vendidos como rock, mas que não passam nem perto, pois percebemos a ausência da essência… rock’n’ roll é feeling sabe.

Caio: Acho que a nossa entrevista tá chegando ao fim. Adorei conhecer o teu ponto de vista depois de ouvir o teu trabalho. Seria uma honra ouvir as tuas considerações finais.

Dani: Eita, foi? (risos) Caio, te agradeço muito pelo espaço e pela paciência. Eu adorei a conversa também. Minhas considerações finais são que primeiramente quero agradecer a você e a Revista Jambo pelo espaço, pela oportunidade de mostrar meu trabalho mais a fundo, quero agradecer também pela ótima entrevista. Claro que não posso deixar de agradecer a todo mundo que de alguma forma me ajuda apoiando e incentivando o meu trabalho, aos meus companheiros de banda.

Um último recado que deixo pras pessoas é que apoiem os artistas autorais e independentes da cena local e que não tenham medo do “novo”. Tem muitas bandas e artistas bons aqui na nossa cidade, ao nosso alcance e que merecem ter seus trabalhos valorizados. É isso, viva a arte, viva a cultura, viva a música!

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