A crítica social através de distopias: uma análise de três obras do cinema


Três filmes, distópicos, cada um contando uma história diferente e, nas três, é possível relacionar uma realidade “tão tão distante” com a sociedade em que vivemos.

Por Tárcyla Arruda e Ranielly Vanessa, do Democratizando as Sete Artes

“Onde Está Segunda?”

As pessoas se encontram em situação de vulnerabilidade, o mundo está marcado pelo colapso de recursos e pela crise super populacional, e como consequência disso temos a fome. Essa descrição é de um mundo fictício, criado pelo diretor Tommy Wirkola, cenário de sua obra cinematográfica Onde está segunda?, lançado em 2017. Se entrarmos mais no assunto, podemos observar que a ficção de Wirkola tem muitas características da realidade contemporânea, como: escassez de recursos, número populacional alto, opressão capitalista e alienação. Alguns desses pontos se fazem mais presentes no filme do que outros, porém hoje em dia temos até movimentos criados para se opôr ao estilo de produção desenfreada, que além de extinguir os recursos naturais do planeta, ainda escraviza as pessoas. Movimentos como o Segunda sem carne ou o grupo ativista contra mudanças climáticas Global Extinction Rebellion, lutam incansavelmente para poupar o meio ambiente e tentar reverter os efeitos catastróficos das nossas ações.

Imagem do filme “Onde está Segunda? “/Reprodução

O diretor certificou-se de deixar uma pulga atrás da orelha dos telespectadores, e nos fazer questionar os nossos próprios atos e no que isso acarretará. Entretanto, não foi apenas Tommy que acertou em cheio e criou uma distopia magnífica, pois ao falar em escassez de recursos e escravidão decorrente do capitalismo, temos uma obra de 2011, “O Preço do Amanhã“, dirigido por Andrew Niccol e estrelado pelo cantor e ator Justin Timberlake, que aborda temas como a fragilidade da vida, luta das classes sociais e a valorização e exibição dos bens acima de tudo. Nessa obra encontramos um clima tenso, porém fluido, que nos faz querer assistir até o fim apreensivos para saber o que acontece.


“O Preço do Amanhã”

O ditado “tempo é dinheiro” nunca foi tão literal, pois nesta nova realidade nos é apresentado um mundo onde não existe mais papel/moeda e os mais ricos não acumulam dinheiro, como na vida real e sim tempo, milhões de anos, diga-se de passagem. Isso acontece, porque a Terra enfrenta uma superlotação, em consequência disso as pessoas nascem e vivem apenas até os 25 anos, a partir dessa idade, o tempo começa a ser contado em seus braços, e a quantidade de tempo, varia entre as classes sociais e econômicas das pessoas. A elite é separada da periferia por várias fronteiras e chegar aos ricos é praticamente impossível, pois é necessário muito tempo para pagar e quem é pobre não tem tempo para isso, apenas para sobreviver.

Por conta da falta de tempo (isso te lembra alguma coisa?), as pessoas periféricas vivem correndo, porque não há tempo para eles. Isso mesmo! Lazer, dormir, jogar conversa fora? É tudo luxo para quem é pobre! Nessa realidade, não há tempo para frivolidades, as pessoas apenas trabalham para comer, e nesse ponto, percebemos uma suave e bastante sutil referência à escravidão moderna, acometida pela contemporaneidade. Por esse motivo, o filme nos passa essa ansiedade e aflição, quando assistimos a sensação é a de que estamos correndo ao lado desses indivíduos, e ainda nos dá a consciência de que nós fazemos parte da periferia. E se olharmos bem para o nosso cotidiano – antes da pandemia, é claro, estávamos sempre correndo, pois somos escravos de um tempo implantado pelo nosso sistema econômico, então vivemos trabalhando sem parar.

Imagem do filme “O Preço do Amanhã”/Reprodução

Will Salas, o personagem protagonista, é um rapaz que foi acusado de assassinato e que deve
descobrir como derrubar um sistema onde tempo é dinheiro e permite que os ricos vivam
para sempre, enquanto os pobres devem implorar por cada minuto de suas vidas. Will mora numa região chamada Dayton, onde a grande parte das pessoas que habitam lá só conseguem juntar algumas horas extras. Aos 28 anos, ele conseguiu colocar mais três anos em sua vida, porém o valor da respiração sobe quase diariamente. Ou seja, o que o custou uma hora ontem pode tirar duas horas de sua vida amanhã. Por falar em custos para respirar, existe um cantor pernambucano chamado Siba, que em uma de suas músicas, chamada “Será?” fala “Será que ainda vai chegar/O dia de se pagar/Até a respiração/E pela direção que o mundo está tomando/Eu vou viver pagando o ar de meu pulmão” aparentemente Siba também acredita numa possível distopia, onde cada respirada que dermos vai nos custar algo – dinheiro? Tempo? Não sabemos, porém podemos imaginar!

E como as referências em O Preço do Amanhã são quase infinitas, não poderíamos deixar de mencionar o quanto o casal Will Salas e Sylvia Weis parecem terem sido inspirados em Bonnie e Clyde, com os seus assaltos a bancos e suas ações radicais e extremas. Todavia, na obra de Niccol, o casal rouba do banco e distribui para o povo. Isso se dá por conta da questão fortíssima de segregação social no filme. Um exemplo disso é quando um dos guardiões do tempo (interpretado por Cillian Murphy) afirma isso ao dizer que Salas, ao conseguir um século de tempo, está desequilibrando a “ordem social” e que ele está no lugar errado, pondo em cheque uma fala discriminadora que valida essa barreira que separa os ricos dos pobres.

Durante a filme, o diretor nos apresenta personagens que possuem milhares e até milhões de anos, enquanto classes inferiores tem que se contentar em possuir uma bomba-relógio basicamente grudada em si para o resto de seus poucos dias de vida. Essa é uma forte crítica social ao acúmulo de capital e a desigualdade de classes. A barreira é tão grande, que enquanto os ricos vivem as suas duradouras vidas em paz, na tranquilidade e imersos em sua própria bolha, a periferia se mata para conseguir tempo e a criminalidade é uma problemática gigantesca.

Por último, mas não menos importante, vamos falar da agonizante obra de James DeMonaco.

“Uma Noite de Crime”

A ideia proposta pelo longa é implantar um plano do governo com a intenção de concentrar toda a atrocidade somente em um dia, fazendo com que os cidadãos libertem seus impulsos, e assegurando a paz no restante do ano. Entretanto, como de costume, essa foi uma decisão implantada pelo Estado, ao observarem que os presídios estavam muito lotados. Então, uma vez por ano, todos os cidadãos norte americanos têm um dia para descarregarem os seus estresses e até mesmo, um dia para se vingarem de outras pessoas.

No primeiro filme de Uma Noite de Crime, o racismo é abordado de maneira dolorosa e forte, quando um grupo de brancos ricos começam uma caça às bruxas aos refugiados urbanos, pessoas pobres e pretas. O enredo se passa na casa de James Sandin (Ethan Hawke), um vendedor de programas de segurança, quando o seu filho Charlie (Max Burkholder) abre a porta para um homem que bate, desesperado, na sua porta pedindo para entrar, pois está sendo perseguido. Dwayne, interpretado por Edwin Hodge, encontra refúgio na cada dos Sandin e se esconde lá, para evitar o seu assassinato. Segundo o grupo de racistas, eles almejam matar Dwayne para “purificar” a raça. Sim! Porque ao cometer esses crimes hediondos, o Estado assegura os cidadãos sua purificação.

Cena de “Uma Noite de Crime”/Reprodução

No meio de todo esse cenário horrorizante e tenso, há a presença das máscaras, usadas pelos assassinos, cujo objetivo acaba não sendo tanto para esconder quem está por trás, porém mostrar o lado obscuro de cada um, que se mantêm escondido nos outros dias do ano. A máscara proporciona acessar os mais profundos pensamentos que outras pessoas não teriam acesso, dando liberdade e autonomia para conseguir tomar uma atitude difícil sem que a pessoa se sinta culpada por tal. É como se fosse deixar de viver a mesma vida dos outros 364 dias do ano, e passar a viver o verdadeiro “eu”, cheio de desejos sombrios e violentos, uma personalidade dominada pelo ódio e todas as emoções mais profundas e negativas guardadas em nossa mente, durante apenas um dia. Nos demais dias, a máscara esconde essa faceta maldosa e agressiva.

A obra de James DeMonaco incomoda muito o nosso íntimo por questionar o seguinte: como reagiríamos se pudéssemos ser quem somos de verdade ao menos uma vez no ano? E se pudéssemos liberar todo o nosso ódio, realizar todas as nossas vontades mais odiosas e sair impunes disso? O que faríamos caso isso fosse, de fato, possível?

Zeen is a next generation WordPress theme. It’s powerful, beautifully designed and comes with everything you need to engage your visitors and increase conversions.

Leia Mais
Made in Pernambuco: Luamarte em sua metamorfose ambulante