Variação e preconceito linguístico: até onde é cultura e quando se torna erro

Quando era criança meu pai costumava reclamar por eu usar a expressão “que só”. Vocês sabem… aquela que usamos no final de alguma frase de forma exclamativa. Por exemplo: “tu ta bonita que só”. Meu pai odiava quando eu usava isso e sempre me cortava quando ouvia. Ele insistiu tanto que eu parei completamente e até hoje eu não a utilizo. Mas uma coisa que ele sempre me perguntava era o que danado esse tal de “que só” significava e eu sempre respondia que era só uma forma de falar, mas eu não entendia de fato o que essa forma de falar representava. Analisando agora, eu sei que essa expressão que meu pai tanto odiava era só uma variação linguística caraterística aqui de Recife e que não estava ou está errado falar ela.

Que o nosso Brasil é um país de extensão territorial e multiplicidade cultural isso é fato, mas o que muita gente esquece é que cada região apresenta sua própria peculiaridade e essa se reflete na língua, ou seja, na forma que o povo de cada lugar fala. Essas peculiaridades são chamadas de variações linguísticas, que estão sujeitas ao contexto histórico, geográfico e sociocultural no qual os falantes estão integrados. Em Pernambuco, é mais que fácil encontrar alguém soltando um “abestado” ou um “miseravi”. O povo foi rearranjando jeitos de se falar determinadas palavras e dando significados diferentes para elas e, honestamente, isso torna o estado e o povo o que ele é.

A língua portuguesa não pode ser determinada como uma língua unidade, sem dialetos e gírias, são muitas variáveis para que isso seja possível. Mesmo que ela tente, a história do povo não permite. Somos colonizados por portugueses, indígenas, espanhóis, holandeses, africanos e mais um bocado. Isso só demonstra a mistura de dialetos que ao longo da história foi se construindo e tornando o português essa língua que a gente fala todos os dias. Uma língua que falamos todos os dias e que não está errada. Tendem a associar falar correto a falar de acordo com a norma culta e que falar com gírias e variações é errado, mas, por favor, ninguém vive sem uma boa variação.

A professora de língua portuguesa e empresária Fernanda Pessoa me explicou um pouco sobre esse negócio de erro.

Uma vez que essas variações têm como objetivo maior a comunicação, jamais a gente deve tratar como erro. Ao apontar essa variação como erro pode-se cometer o que se chama de preconceito linguístico, que foi o que aconteceu comigo e o que acontece com tanta gente.

Ela sofreu preconceito nas redes sociais, na última semana, a respeito do seu sotaque. “A fala que estava no meu Instagram dizia para eu tirar meu sotaque horroroso e usar a norma culta, o que não faz sentido algum porque eu não cometi nenhum tipo de infração gramatical na minha fala, eu obedeci a norma padrão, mas o meu sotaque está ligado a minha origem. Detalhe, o meu sotaque é o meu ritmo, é o som da minha fala, não tem nenhum tipo de relação com o fato de falar culto ou de maneira mais formal ou não”, contou.

A facilidade que nós temos de julgar aquilo que é diferente me surpreende e julgar alguém por agir e falar de acordo com o ambiente em que ela cresceu beira o absurdo. Mesmo a mais ignorante das pessoas sabe que nosso país é repleto de diferenças e cada um de nós fala de acordo com a nossa comunidade e o que nós aprendemos com ela.

Tereza Albuquerque, também professora de língua portuguesa, explicou que a linguagem vai além do abstrato.

Mikhail Bakhtin, hoje a base da linguística, dizia que a produção de linguagem se dava dentro de uma esfera, chamada de concreto, não sendo só uma discussão abstrata, mas sim esses usos cotidianos, corriqueiros. E ele chama atenção para duas coisas fundamentais: propósito comunicativo, o que eu quero no momento que eu escrevo, e as situações de produção do discurso. Quando ele coloca isso, dá uma possibilidade de se entender a linguagem como questão também focada no subjetivo, não como um padrão como algumas pessoas querem fazer que ela seja.  Não estou dizendo que a gramática é ruim, muito pelo contrário, a gramatica é fundamental, mas ela não nasce sem a comunidade. Essa pensa a forma de falar e aos poucos vai existindo uma certa padronização.

Quando se considera um “tá ca gota” erros gramáticos se esquece de um fato importante que tornam essas expressões aceitáveis: a cultura. É como eu disse antes, somos repletos de diferenças, nossa cultura é rica e bela, e nossa língua é mais rica ainda. Cada cantinho do país apresenta sua forma de expressar e isso é passado de geração a geração e adaptado para cada uma delas. Então, como se pode considerar cultura um erro? Pois é, abençoado. Não pode! Aceitar isso como erro é preconceito e gera constrangimento àqueles que sofrem.

O preconceito linguístico que é gerado pela ideia de que existe somente uma língua correta baseada na gramática normativa colabora com uma prática que a gente vê todo dia, que é a exclusão social.[…] É importante destacar que o preconceito acontece muito no teor do deboche e ele gera vários tipos de violência. Desde a verbal quanto, muitas vezes, a física. As pessoas que sofrem com preconceito linguístico adquirem muitas vezes problemas de sociabilidade e até mesmo distúrbio psicológico. Eu noto muito isso no curso porque eu tenho muitos estudantes que vem do interior do estado”, relata Fernanda Pessoa.

Você pode pensar que a maioria dos dialetos considerados errados vem da falta de educação dos falantes e que se fossem “letrados” falariam o chamado “correto” na sociedade. Bom, Tereza discorda desse ponto. “Esse discurso de que quem não tem educação fala errado é um discurso pautado nitidamente no preconceito e na falta de informação do que é linguagem. Agora quando pegamos uma prova do Enem de língua portuguesa e só 2% da população tira nota acima de 900 é muito grave, pois mostra que há um problema grave na hora de ensinar a língua portuguesa e redação nas escolas. E a base do nosso preconceito vem desse ambiente, da escola.”, explica ela para mim. “Quando, por exemplo, há alguma questão para escrever a frase certa, está passando a ideia de que a uma única forma de se falar correto e, consequentemente, isso acaba desprezando a situação de produção do discurso de outras pessoas. Atrelado a isso, do ponto de vista cultural, há o desprezo a tudo aquilo que é ligado ao nosso povo. Gilberto Freire, ao escrever Casa Grande e Senzala, por meados de 1933, fala sobre a mistura da língua brasileira e foi o primeiro a dar espaço para a fala do povo.”, conclui.

Sendo nascida e criada aqui em Pernambuco, que pessoalmente considero uma escola dos dialetos, eu sempre fui de falar muitas expressões típicas daqui. Contudo, ao longo dos anos, ou esqueci algumas ou simplesmente parei, como o “que só” que meu pai detestava. Isso me fez perceber que estamos sempre sujeitos ao ambiente em que vivemos ou às pessoas com quem convivemos. Mesmo que tentemos não ser influenciados, é algo inevitável e que vai estar presente na sua origem para sempre e que merece respeito. Creio que a chave para tudo é isso: respeito. Respeite de onde você veio e respeite o que você aprendeu com esse lugar, pois é assim que se constrói uma boa valorização da nossa cultura. E mesmo que alguns considerem meu sotaque ou forma de falar tosco, eu acho uma obra prima da língua portuguesa e tenho orgulho de falar dessa forma. Quem disse que a língua tem que ser engessada, fixa e imutável? Ela é feita por nós e para nós. Então se orgulhe do seu “oxe” porque eu me orgulho do meu.

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