O vegetarianismo na cozinha do salário mínimo

Dez anos atrás decidi me tornar vegetariano. Tomei essa decisão depois que um amigo me mostrou um vídeo de como frangos eram abatidos e processados – fiquei duas noites sem dormir, inclusive. Dois meses depois, dependendo dos meus pais pra me alimentar, decidi voltar a consumir ovos e laticínios por já não conseguir diversificar os ingredientes das refeições. Meses se passaram até que eu voltei a comer carne novamente. Não sei explicar bem o motivo, mas voltei.

Aconteceu que, navegando na timeline de uma rede social, me deparei com uma tweet que dizia, em outras palavras, ser impossível ter uma dieta vegetariana recebendo um salário mínimo ou pouco mais que isso. Fiquei curioso. De início, até concordei com a afirmação mas, como saí da casa dos meus pais recentemente, lembrei de ter reclamado, mais cedo naquele dia, sobre o preço da carne moída, que estava nas alturas. Comecei a pensar, pesquisar e entrevistar especialistas no assunto e você pode conferir minhas conclusões abaixo.

O Ibope apurou que, em 2018, os vegetarianos e veganos já somavam 30 milhões em todo país. O movimento, que vai além da alimentação, se tornou peça chave em empresas que decidiram se adaptar às novas realidades, inclusive.


Natália Alcântara, nutricionista especialista em nutrição vegetariana, topou bater um papo comigo sobre esse assunto. Ela me contou que não tinha o objetivo de ser especialista em nutrição vegetariana. Tudo começou quando a irmã dela colocou na cabeça que iria deixar de comer carne. Natália logo começou a estudar sobre o assunto pra poder ajudar na dieta da irmã e, como se já não bastasse, ganhou um pet no mesmo ano, o que a incentivou ainda mais a entender um mundo sem carne no cardápio.

Começo nossa conversa com a pergunta que deu origem a esse texto. “É possível ser vegetariano recebendo um salário mínimo?”. “Sim”, me disse.

Existe uma pressão da indústria de que a gente precisa de leite, de carne… A carne pode ser substituída e as leguminosas estão aí pra isso […] A indústria também nos diz que precisamos tomar leite como fonte de cálcio. Mas nós precisamos de cálcio e não de leite. E esse micronutriente pode ser encontrado nas leguminosas.

Natália mencionou que feijão, lentilha, grão-de-bico, ervilha, soja e amendoim são opções para substituir a carne nas nossas refeições. Não precisa de muita pesquisa para perceber que, ao menos, dois dos itens citados podem ser encontrados com facilidade na grande maioria dos lares brasileiros. Se do ponto de vista nutricional a carne pode ser efetivamente substituída, qual a razão, então, ara que seja tão consumida?

Um comentário de Alcântara me chamou atenção. Ela conta que o consumo de carne está relacionada ao poder aquisitivo, como uma espécie de status, no tipo “quem come esse ou aquele corte realmente tem muita grana”. E faz sentido.

Acima é possível perceber que três conchas de feijão cozido, equivalentes a 180 calorias, custam menos da metade que 100g de frango, com valor nutricional inferior.

Natália também disse que atende muitos pacientes que acham que a alimentação vegetariana é cara e difícil de ser preparada. Sobre isso, perguntei “se só tivéssemos dinheiro para consumir uma combinação, qual você indicaria?”. Arroz com feijão.

Ainda um pouco incrédulo, fui atrás de alguém que vivesse uma dieta mais ou menos proposta pela nutricionista, e encontrei. Renatta Cheron é uma universitária de 19 anos que escolheu ser vegetariana depois que um amigo, no aeroporto, pediu pizza de queijo por não comer carne. Ela ficou curiosa e decidiu seguir o exemplo dele. Ela contou que foi um pouco difícil, já que seus pais acharam que seria apenas uma “fase”.

Comentei sobre como as frutas e itens como arroz, feijão e cuscuz conseguem ser mais baratos que a proteína animal e ela confirmou que ainda existe um certo tabu em relação ao vegetarianismo, que as pessoas ainda acreditam ser algo difícil de se alcançar. Mas ela garante que tudo é uma questão de hábito e que as receitas são fáceis e baratas.

Tanto Natália como Rennata aconselham, para quem deseja ter esse tipo de estilo de vida, uma diminuição gradual do consumo de carne. Com as dicas para substituir a proteína animal de é possível se adaptar ao vegetarianismo de forma mais leve e concisa, para que os avanços não sejam perdidos, como aconteceu com esse que vos escreve.

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