Clarice: flor-de-lis no peito recifense

Pertencer (verbo t. i.): ser propriedade de alguém; ser parte de, estar contido em: pessoa
– Clarice Lispector – pertencente ao Recife.

“Quem foi Clarice Lispector?” Talvez essa seja uma pergunta que ronde a cabeça de muita gente por aí. E, caso você nunca tenha pensado nisso, com certeza está pensando agora ou já se perguntou “de onde é Clarice?”

Nasci na Ucrânia, terra de meus pais. Nasci numa aldeia chamada Tchechelnik, que não figura no mapa de tão pequena e insignificante

Clarice é uma escritora brasileira, nascida na Ucrânia, mas ainda assim brasileira com todas as letras e os direitos que lhe cabem. Filha de imigrantes, Clarice tem um lugar só dela na nossa literatura desde a publicação de seu primeiro romance Perto do Coração Selvagem, em 1943, quando a autora tinha apenas 23 anos.

Pertencente à Geração de 1945, a terceira fase do movimento modernista na literatura nacional, Clarice mudou o cenário da época com sua prosa intimista e que falava mais de sensações do que de fatos, algo novo para a época e inédito no país – o que a fez ser comparada a Virginia Wolf e James Joyce, grandes nomes da literatura inglesa.

Muitos mitos e mistérios circundam a autora de A Paixão Segundo G.H. (1964), alguns são dados por sua obra com teor autobiográfico ou por sua língua presa, o que fazia com que muitos achassem que ela fosse uma estrangeira – o que de fato era, em termos de nascença e escrita, mas definitivamente não de identidade. Mas se ela era estrangeira, como poderia ser brasileira e, além de tudo, nordestina?

Sou brasileira naturalizada quando, por questão de meses, poderia ser brasileira nata. Fiz da língua portuguesa minha vida interior, o meu pensamento mais íntimo, usei-a para palavras de amor

Você se identifica com quem você é? O que te faz ter a identidade que você tem? O lugar onde nasceu e o que dizem sobre você? Ou o sentimento de pertencimento a algo, suas próprias escolhas e gostos? Você tem apenas uma identidade? Que peso a palavra “criar” tem para você?

Clarice viveu em diversas cidades ao longo de seus quase 57 anos. Rio de Janeiro, Washington, Berna, Nápoles, Torquay… Maceió e,  uma das mais importantes na criação da autora – e da pessoa de Clarice -, Recife.

Criei-me em Recife, e acho que viver no Nordeste ou no Norte do Brasil é viver mais intensamente e de perto a verdadeira vida brasileira…

Foi para Recife que, em 1925, a família Lispector mudou-se em busca de melhores condições de vida, quando Clarice tinha por volta de cinco anos. A família morou por bastante tempo no segundo andar de um casão em frente à praça Maciel Pinheiro na esquina da rua do Aragão com a travessa do Veras, no bairro da Boa Vista.

Eles moraram por quase nove anos na cidade, possuindo outros endereços além do mais famoso entre os curiosos por sua vida e obra. Em Recife, Clarice perdera a mãe, estudou no Ginásio Pernambucano, fantasiou-se de rosa em um dos carnavais e roubou pitangas. Foi também em Recife que a autora de Felicidade Clandestina (1971) escrevera suas primeiras histórias, criou o desejo de mudar a situação social do país – o que a fez cursar a Faculdade de Direito do Rio de Janeiro -, e onde fora mais feliz, como relatado na crônica Banho de Mar, publicada no Jornal do Brasil em 25 de janeiro de 1969.

Eu nunca fui tão feliz quanto naquelas temporadas de banho em Olinda, Recife

Recife, de certo, sempre deixa a sua marca em quem passa pela cidade, e com o monstro sagrado da literatura não poderia ser diferente. “Mas Recife continua firme”, foi o que respondera Clarice quando perguntada sobre o local que mais a marcara dentre todos os quais por onde já havia passado. A afetividade, o carinho e a memória de Lispector sobre sua cidade é algo que nunca deixou de ser visto ao longo de sua produção literária. Seja em suas crônicas publicadas entre 1967 e 1973, seja em alguns de seus romances onde há sempre a presença de uma cidade como personagem e caráter principal da história – como em A Cidade Sitiada (1948), e nos belíssimos contos em que Recife aparece em toda sua majestade: Felicidade Clandestina, Cem Anos de Perdão, Restos de Carnaval e O Manifesto da Cidade. Não há como negar a história dessa pernambucana com o local onde crescera e onde formou parte desse mistério que foi Clarice.

Quando há a discussão sobre se Clarice é ou não pertencente à Pernambuco, não temos como deixar de fora disso o sentimento do pertencimento, visto que é algo maior do que questões geográficas que podem colocar em um documento como uma tentativa de lhe dizer quem você é ou de onde você vem. Como bem dito por uma amiga, Renatta Cheron, “nós não estamos debatendo a nacionalidade, a gente está debatendo a história de uma pessoa com o lugar; e dizer que essa pessoa não pode se sentir parte de tal lugar beira ao egoísmo com uma pitada de preconceito”.

Mas quando enfim se afivela a máscara daquilo que se escolheu para representar-se e representar o mundo, o corpo ganha uma nova firmeza, a cabeça ergue-se altiva como a de quem superou um obstáculo. A pessoa é.

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