O polêmico e o realista de Lars von Trier

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A arte existe, antes de tudo, para refletir uma visão. Seja ela chocante ou fabulosa, a arte está lá para expor ao mundo os pensamentos e opiniões de quem as idealiza e concebe, independente de seus problemas ou polêmicas. Nisso, chegamos a Lars von Trier. Confesso não ter sentido tanta admiração por ele, de início – por muito tempo meu interesse se resumiu apenas a Dançando no Escuro (2000). Irônico é que pouquíssimos filmes dele marcaram o trabalho do diretor da maneira que este o fez. A moldagem em cima da fórmula de um musical, unindo a atuação bem extraída e as habilidades musicais de Björk (na época no que eu considero seu auge, após o sucesso estrondoso do disco Homogenic, de 1997), e o tom inocente e leve em cima de uma série de situações trágicas concedem ao filme uma aura única.

Pra quem não sabe, a história é simples: imigrante tcheca, Selma Ježková foi para os Estados Unidos em busca de oportunidade e acaba por morar em um trailer na propriedade de um policial abastado e sua esposa. Amante de musicais, Selma tem delírios oníricos constantes onde todos ao seu redor se organizam em um grande número musical. Quase cega, junta dinheiro para operar a visão de seu filho (a cegueira progressiva é genética e se manifesta depois de certa idade), porém é roubada pelo policial que a fornece abrigo, para sustentar seu estilo de vida fútil e superficial. Na tentativa de recuperar a quantia subtraída, Selma vai à casa do policial e acaba por assassiná-lo, em um momento de desespero. Ela é presa e condenada à execução por enforcamento.

O filme em si oscila entre o lado sombrio do realismo e suas dificuldades, beirando a tragédia, e o lado alegre e colorido dos musicais, onde todos sorriem. Destaque para a faixa In The Musicals (composta pela própria Björk, assim como todos os números musicais) onde Joel Grey, interpretando o histórico ator e dançarino Oldrich Novi, dirige a Selma um infame “and i’ll always be there to catch you” (eu sempre estarei aqui para segurar você), sendo que as maiores provações do filme são enfrentadas por Selma e apenas por ela. Último filme da trilogia do coração de ouro, Dançando no Escuro tem em comum com os seus dois antecessores (Os Idiotas e Ondas do Destino) o retrato de uma personagem de coração puro, mesmo diante de múltiplas adversidades.

Björk, como Selma, em Dançando no Escuro (2000)
Foto: Reprodução

Outro filme que eu me senti interessado (na verdade, um dos que eu me senti menos atraído) foi Anticristo (2009). Mesmo sendo, em minha opinião, um dos mais monótonos do diretor, ele apresenta uma subversão no gênero de terror, apelando em si pra uma degradação psicológica, algo semelhante a Irreversível de Gaspar Noé e Réquiem Para um Sonho de Darren Aronofsky. A história se foca apenas em um casal, composto por Charlotte Gainsbourg (musa do diretor, pelo menos no que compõe esta trilogia) e Willem Dafoe (outro constante nos trabalhos de von Trier), que perdeu o filho em um acidente, num momento de descuido durante uma relação sexual. O sexo é real e explícito, a violência gráfica é convincente e nada parece realmente forçado. Existe ainda uma discussão a respeito da natureza do feminino e da própria natureza. Seria a natureza criada por Deus ou pelo diabo em pessoa? Todos esses devaneios surgiram da mente de um Lars depressivo, que quase encerrou a sua carreira em 2007, em um quadro de depressão que arrastaria por anos. A propósito, Anticristo compõe a trilogia da depressão, sendo um espelho do estado de espírito do diretor até a sua recuperação.

Ora, mas se por um lado Anticristo parece ser uma sombra da depressão e da tristeza, por sua vez, Melancolia (2011) traz o monstro à sua luz totalmente exposta. O filme retrata os diferentes pontos de vista das irmãs Justine (Kirsten Dunst) e Claire (Charlotte Gainsbourg), uma enfrentando a depressão e a outra a tentar ampará-lá. Porém, tudo piora quando um planeta do tamanho da Terra, chamado de Melancolia, se aproxima de nosso planeta, sendo o choque dele ainda mais próximo e inevitável. Existe quem tenha esperança, existe quem tenha negação e existe ainda uma aceitação do destino que está por vir. São evidentes os nuances de uma mente depressiva, não interessada em chocar, mas dessa vez em se expor, se abrir e revelar seus mecanismos.

Lars von Trier
Foto: Reprodução

Por fim, chegamos ao meu preferido. Ninfomaníaca (2013), praticamente um épico pornográfico dividido em duas partes (algo semelhante ao que foi feito com Kill Bill, de Quentin Tarantino), retrata a vida de Joe, uma autodeclarada ninfomaníaca, em sua íntegra, quase como sua ascensão e queda. Vemos como ela se descobre e se encaixa no mundo. O filme todo é uma conversa entre os dois personagens principais, e fica evidente a dualidade dos dois. Seligman, o bacharel, trata de estabelecer paralelos durante a narrativa com os acontecimentos da vida de Joe, sejam eles técnicos, matemáticos, político-filosóficos ou religiosos, existem sempre comparações ou referências, sendo neste filme um traço ainda mais forte do que nos anteriores.

Nada aqui é realmente glamourizado. O sexo aqui é algo fora do controle da protagonista, trata-se de um transtorno que a prejudica constantemente, tanto em seus relacionamentos quanto na sua própria percepção de mundo e senso de autoproteção. Ao longo das duas partes, Joe faz sexo com múltiplos parceiros, vários deles sem proteção, abandonam o próprio filho, envolve-se em sessões de tortura e até mesmo com o crime organizando, através da agiotagem. Fica claro aqui que ela não tem lugar na sociedade, por não se enxergar dentro dela. Não existe um plano para Joe além do sexo, não existe valor em outras coisas na vida. O filme é o menos chocante da carreira de Lars von Trier justamente por ser plausível, realista. Nada fantasioso, de comparado aos dois anteriores da trilogia da depressão, Anticristo e Melancolia.

Faço ainda menção honrosa a filmes como Dogville (2003) e Manderlay (2005), ambos filmados sob uma cenografia teatral dentro de um galpão; e ainda a O Grande Chefe (2006), comédia pastelona filmada utilizando-se de automavision, técnica que consiste em deixar os ângulos de câmera e seus respectivos movimentos sob a responsabilidade de um computador.

Longe de defender von Trier, entendo exatamente o porque de ser considerado persona no grata não só por Cannes, mas por boa parte do público. Desde sua aparente excitação em desgastar física e psicologicamente as atrizes que participam de seus projetos (esqueça o que Stanley Kubrick fez com Shelley Duvall, em O Iluminado), até mesmo outros membros da equipe (o produtor executivo de Dançando no Escuro em um colapso nervoso chegou a destruir computadores e materiais da equipe), passando por suas declarações polêmicas, o comportamento do artista nunca deve ser justificado pelo resultado de sua arte.

Björk prometeu nunca mais trabalhar com o diretor, ao ponto de enviar uma carta a Nicole Kidman, que recomendava a atriz desistisse de protagonizar Dogville, filme que sucedeu Dançando no Escuro. Nicole, por sua vez, também se sentiu desgastada com Lars von Trier e não sentiu interesse em participar da continuação, Manderlay. Já neste último, um burro foi morto numa cena que envolveria personagens comendo a sua carne, ao ponto do ator John C. Reilly desistir permanentemente de seu papel no filme. As declarações nazistas em tom de piada também não devem ser esquecidas, ao ponto de Lars alegar “entender Hitler, por mais que não o compactuasse”.

Porém, mesmo com sua conduta desprezível, o diretor conquistou uma legião de admiradores de suas obras com teor crítico e incômodo, composições narrativas coesas e equilibradas e um conjunto de narrativas que enriquecem a trama, fazendo deste um dos melhores diretores que já existiu.

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Foto: Reprodução/Divulgação
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