Made in Pernambuco: conheça Martins, um cronista itinerante

Foto: Ashlley Melo/Divulgação


Tenho dito que acho os teus cabelos vermelhos
Parecidos com meu Sarará
Vou ficar colado em teu tornozelo
Que zelo
Vê-la e vê-los é tudo o que há
Que há…

Os versos acima são trechos da música Vermelhos, da banda Marsa, um dos projetos do compositor e músico pernambucano Thiago Martins – ou apenas Martins, como é mais conhecido. Durante a minha entrevista com ele, o artista fazia referências com constância à essa música, o que me fez entender um certo queridismo pela obra, por parte dele. Em certo momento da entrevista, Martins chegou a pegar um violão apoiado ao lado dele e tocar um trecho de Vermelhos, no intuito de me explicar a dificuldade que teve em aprender o arranjo da música na guitarra.

Quando se toca guitarra numa banda, tem que se pensar numa série de arranjos combinados entre os dois guitarristas. Fazer isso enquanto cantava, pra mim, foi quase impossível

 Ao tocar nesse assunto de instrumentos, ele não soube conter sua modéstia. Virginiano e com lua em Leão, Martins não se considera um bom instrumentista, julgando ser mais familiarizado com a lírica. “Sou um péssimo instrumentista. O pessoal diz que é modéstia, mas não é. Eu realmente conheço meus limites e faço do meu tocar uma coisa mais pessoal, mesmo“. No entanto, não há como pensar dessa forma. A bagagem cultural de Martins o fez dono de uma sensibilidade única, que acabou por se converter em grandes canções. Esse fenômeno musical vem acontecendo desde 2010, quando formou sua primeira banda, Sagaranna, onde tocava rabeca.

 Martins tem uma relação especial com a rabeca, instrumento de sonoridade que não se encontra em nenhuma academia de música desse mundo. O único conservatório possível de tal instrumento é aquele dos trabalhadores rurais, dos bóias frias, dos cortadores de cana. Original da Zona da Mata Norte de Pernambuco, a rabeca é um instrumento de pouca complexidade, mas de muita riqueza e história. “A rabeca é meu instrumento de resistência total! É um instrumento que não tem partitura, que não é lido. Afinal, foi criado por trabalhadores rurais como uma forma de expressão e divertimento”, contou.

“Fiz letras por um tempo. Só que, no meio da faculdade, eu já estava numa banda e já tínhamos uma turnê agendada pela Europa. Foi um momento difícil na minha vida, em que tive que escolher qual dos caminhos me faria mais feliz. Escolhi, então, ser um burocrata da música.”

Meu corpo vem da raiz
Por onde o som vem e emana
Sou solo fértil, aprendiz
Sou safra farta da cana
Sou sobrado e a choupana
Pros casarões sou engenho
Pois te digo de onde venho
Posso bem lhe convencer
Meu corpo vem da raiz
Lá dos confins de você

Quando tocava no Sagaranna, a sonoridade da rabeca e das percussões africanas lhe sugeria uma lírica mais surreal, voltada para a cultura dos trabalhadores e acontecimentos da natureza. Uns anos depois, quando fundou o Marsa, migrou da rabeca para a guitarra, o que lhe fez pensar uma lírica mais urbana e direta. “Eu sentia a necessidade de externar o que acontecia comigo, de falar das minhas observações pessoais, do meu dia-a-dia. Foi essa a minha contribuição pro Marsa”. Marsa é uma banda que surgiu em 2015, quando os irmãos Rodrigo e Ricardo Samico se juntaram com Martins para se apresentarem no Festival Pré-Amp. Após ganhar o festival, a banda gravou um disco – muito elogiado pela crítica e pelos fãs, contribuindo para a cena musical alternativa recifense.

Somente uma pessoa de fora
Pra me reconhecer por dentro
Tão somente uma pessoa certa
Pra me reconhecer por dentro

 Ainda que um sintoma do seu zodíaco, Martins revela que nunca fica 100% satisfeito com o resultado de suas gravações, principalmente se tratando de voz. Mesmo assim, ele está bem ciente de sua importância para os fãs e para a nova cena musical que se reinventa em Pernambuco, mesmo sendo “cena” um termo que não gosta tanto. “Cena me soa muito estático, parado. O que acontece mesmo, na música, é uma movimentação constante dos artistas, não é só uma cena”.

De acordo com cada projeto que teve na vida, Martins não se conteve numa única forma de trabalhar, visto que cada um seguiu num formato diferente. No Sagaranna (2010), a poesia vinda das brenhas sertanejas e o som agudo da rabeca reinavam, enquanto o Marsa (2015) tinha um som que explodia em guitarras e poesia urbana. No seu álbum solo, Martins optou por sintetizar tudo isso num elemento que o representasse por inteiro, sem ser pontual em relação aos instrumentos e à lírica. Apenas ser ele mesmo.

Foto: Ashlley Melo/Divulgação

Johnny: Vamos começar já falando sobre essa relação com a literatura. Como que isso te levou pra música?

Martins: Eu venho de uma vivência muito forte com a cultura popular, sabe? Essa vivência corresponde aos tocadores de viola, aos repentistas, emboladores… e existe uma poesia oral muito forte nesses lugares onde se cultivam esses movimentos, que é a região da Zona da Mata Norte de Pernambuco. Como nessas regiões se têm muitos trabalhadores do cultivo de cana-de-açúcar, a diversão deles é criar essas rimas, dentre outras coisas também, como a capoeira e a festa do cavalo marinho, que é uma celebração belíssima. Esse tipo de poesia é feita a partir de um negócio chamado “rima metrificada”, coisa que vem de muito tempo, dos trovadores ibéricos e tal… e essa poesia tem muito ritmo, e esse ritmo sugere canções. Foi aí que percebi que eu poderia fazer músicas a partir dessa métrica, justamente pelo ritmo da poesia, o que foi ponto de partida pra eu criar minha primeira banda, o Sagaranna. Nós éramos muito influenciados por bandas do movimento manguebeat, tipo Mestre Ambrósio e, mais pra frente, Cordel do Fogo Encantado, que são bandas influenciadas, também, por essa poesia que eu tô falando. Quando eu tinha uns 18 anos, participei de um festival de poesia chamado Recitata, onde o participante tinha que ir lá e declamar sua poesia. Acabei ganhando de primeira. Recebi um prêmio de três ou quatro mil reais e fiquei rico por uns meses (risos). Mas foi muito mais importante, para mim, participar e estar lá com um monte de poetas legais, e isso meio que me incentivou a levar essa poesia mais adiante.

Johnny: No que você se inspira para escrever suas letras?

Martins: Bicho, eu me considero um cronista itinerante (sorri). Tudo o que eu vejo e presencio, principalmente agora, eu gosto muito de escrever. Só que, por exemplo, na época do Sagaranna eu escrevia muito mais sobre coisas específicas, do que eu via sobre aquela cultura. Então eu falava de natureza, do quão aquela cultura é importante para os trabalhadores rurais, falava sobre coisas da minha família e temas mais voltados para a cultura popular. Já na época do Marsa e agora, na minha carreira solo, eu escolhi escrever sobre algo mais interno, justamente para externar aquilo que eu tinha mais vontade de falar. Então eu canto sobre desamor, sobre experiências pessoais, sobre minha relação com a cidade, com pessoas que eu me relaciono… minha inspiração, então, vem de todos os lugares.

Johnny: Você acha que se arriscar e quebrar a cara é importante para a vivência do artista?

Martins: É importante, sim. Afinal, você só vai saber se deu certo se tentar. Arriscar, na verdade, é o segredo da vida, de tudo, porque se você arrisca e acerta, aí é massa… se não acertar, você vai aprender com aquele erro e vai se munir com esse conhecimento. Aí você não erra novamente. E isso vale pra qualquer coisa, um relacionamento amoroso, montar uma banda, trabalho, empresa… tudo, mesmo. Antes eu achava que ser artista era um lance meio impensável, pra mim. Tipo, eu não fazia ideia de como se era montar um disco, fazer gravação e nem compor uma música. Era algo distante, mesmo. Eu lembro que eu ganhei de dia das crianças, eu tinha uns 12 anos, aquele disco de Caetano Veloso, Prenda Minha. Eu ouvia aquilo e ficava com uma vontade arretada de ser músico, mas não fazia idéia de como era pra fazer uma música (risos). Por isso optei por ser professor de literatura, primeiro. Eu pensava “Ah, se eu não vou conseguir ser artista, vou ser professor, que é algo que eu gosto também”.  O que me fez perceber que era possível, pra mim, ser artista, foi ver toda a movimentação dos artistas daqui de Pernambuco, tá ligado? A partir do momento que eu vi gente da minha cidade, do meu lugar, fazendo música, eu comecei a achar mais possível, e foi aí que comecei a me inspirar. Entrar em contato com a cultura e a produção musical pernambucana, foi o que me fez querer começar a fazer música.

Johnny: E a família te apoiou nessa decisão de abandonar o curso de literatura e seguir carreira como artista?

Martins: Apoiou! Agradeço muito aos deuses, deusas, divindades aí… se é que existem, por tudo que me aconteceu na música, inclusive o apoio dos meus pais. Minha mãe, mesmo, adora! A bichinha fica toda orgulhosa quando me ver tocar, ela gosta de ir aos shows, de falar pros amigos…adora mesmo! Inclusive, foi ela quem me deu todos os meus instrumentos, então eu sempre tive o apoio dela. Meu pai também apoia, mas ele não é tão ligado à música. Ele gosta e tal, acha massa, mas a sensibilidade dele está pra outras coisas (risos). Mas é isso, se eu tenho o apoio da família, eu não posso vacilar. Conheço gente que não teve a mesma sorte que eu, que ficaram sozinhos nessa, sabe? Se eu tenho o apoio da família, já me considero muito sortudo, mas é um sinal, também, de que eu não posso vacilar. Tenho que agarrar a parada e agradecer (empolga-se)!

Johnny: Você tocava rabeca não só no Sagaranna, mas também no Forró na Caixa. Antes da rabeca, você já tinha alguma relação com o forró?

Martins: O forró, pra mim, veio por causa da rabeca. Claro que eu já tinha uma relação como forró de sanfona por conta de Luiz Gonzaga e Jackson do Pandeiro, mas principalmente por causa da minha família, que vem do interior. Só que era aquela coisa, né? Eu ouvia, achava massa, mas não era algo que me interessava tanto, na época. Foi só quando eu comecei a tocar rabeca que eu me interessei pelo contexto do forró, pelo estilo da música e pelos fazedores, também. Foi graças à rabeca que eu comecei a dar o valor devido à essa música, o que eu acho certo. Porque o forró, independente de como é feito, consegue ter a atenção de todo mundo, sendo de rabeca ou de sanfona. Hoje o forró é um negócio muito maior, né? O forró estilizado, como chamam, que é cheio de coisa. Mas tem problema nenhum, acho massa de qualquer jeito (risos). Eu gosto é de gostar! Inclusive, é difícil fazer um bom forró. Eu ja fiz muito forró instrumental, na rabeca, mas fazer um completo e legítimo, exige todo um rigor. Até porque, com a rabeca, você tem certas limitações que a sanfona não tem, sem falar da maior complexidade e teoria musical que tem no forró de sanfona.

Johnny: Essa coisa concreta da poesia vem muito do modernismo, né? Você se considera um moderno?

Martins: Tudo aquilo que se faz agora pode ser considerado “moderno”. Mas quanto a minha lírica, eu posso dizer que sim, principalmente por conta das minhas influências. Sou muito fã de Manoel Bandeira e de João Cabral, tudo que já li deles, de alguma forma, adicionou alguma coisa na minha forma de escrever. Mas se tem uma coisa que eu gosto é do som das palavras, de brincar com a fonética delas. O som da palavra me sugere mais uma canção do que o significado dela. Já fiz música só pra por uma palavra específica dentro dela, sem precisar fazer muito sentido. As vezes faço umas letras que a turma julga serem bem complicadas, como na música Queria Ter Pra te Dar. Nela eu falo: “Que embaraço a tua tez, há de haver algo no mundo mais conciso”. Parece algo bem complexo, né? Mas no final era só eu confuso com uma expressão na cara de alguém, sem saber o que essa pessoa queria (risos). Hoje em dia eu to me voltando para um tipo de poesia mais simples, mas eu ainda gosto do meu estilo mais sisudo. Eu gosto de palavras.

Johnny:  Falando agora do disco do Marsa, o Circular Movimento, eu percebi que havia um coletivo de artistas trabalhando no disco como um todo. Sendo na capa, na produção ou na execução das músicas. Para você, é importante ter essa comunicação entre artistas?

Martins: Ah vei, acho imprescindível. Primeiro que o álbum do Marsa foi gravado muito na amizade, até porque a gente precisava de todo apoio possível naquele momento. Nós tínhamos acabado de vencer o Pré-amp e a oportunidade do álbum veio como prêmio, e mais quinze mil reais. Só que, bicho, quinze mil reais não dá nem pra terminar um álbum inteiro, saca? Então boa parte do disco a gente gravou em casa, sempre com uns amigos artistas ajudando. Felipe S, do Mombojó, tava de passagem lá no homestudio e gravou o baixo da música Serpente, só por tentativa. A gente não tava conseguindo uma linha de baixo legal pra essa música, e Felipe já era amigo nosso, na época. Nesse dia, ele apareceu só pra dar um alô, mas acabou salvando a música (risos). Chamei também Igor de Carvalho, um grande amigo meu de carreira, para fazer uns backing vocals pro disco, que acabou ajudando muito, também. Então foi muito isso mesmo, o disco foi gravado na base da amizade que a gente tinha com outros artistas.

Johnny: E sobre tocar nos outros festivais, como Rec-Beat e FIG?

Martins: Sempre que vou, são ótimas experiências. Sempre fui no Rec-Beat pois sempre era o palco que mais me interessava, no carnaval. Todo aquele circuito de bandas alternativas era muito do meu interesse. Vi artistas incríveis se concretizarem por lá. A primeira vez que toquei lá foi com o Marsa. Quando a gente foi convidado, eu surtei (risos), e é uma coisa de doido mesmo, porque toda a estrutura é foda. Você vê que é um lance totalmente profissional. No FIG [Festival de Inverno de Garanhuns], eu já tinha tocado algumas vezes com outros artistas, além do Marsa, e é sempre muito boa a recepção por lá. Toquei, no meu último FIG, com a Nova Cena Musical Pernambucana, que é como chamam nosso coletivo de artistas. Apesar do reconhecimento, não gosto muito do termo “cena”. Cena parece algo muito parado, muito “uma coisa só”. Aquilo, pra mim, é uma movimentação!

Johnny: Você lançou um álbum solo, no final de 2019. Novamente você conta com a participação de mais um coletivo de artistas, que é o grupo Reverbo. O quão importante pra sua carreira é a convivência com esse grupo?

Martins: Muito importante, sem dúvidas. O Reverbo foi idealizado por Juliano Holanda, que produziu meu disco e me ajudou a compor também. A idéia inicial era juntar mais de 60 artistas e fazer um circuito de apresentações ao longo de quatro dias, só que acabou não rolando. No entanto, esse grupo ainda conseguiu dar certo, por que a gente se frequentava muito e defendia nossos projetos. Além da frequência nas apresentações, fizemos uma série de parcerias também. Eu diria que boa parte do meu público de Recife, se deu por conta da movimentação promovida pelo Reverbo, que rolava muito lá no Terra Café. O Terra Café teve sua importância na carreira de todos os artistas do coletivo, justamente por ser uma casa alternativa, com uma magia muito legal em sua essência e que só tocava música autoral. Tudo isso colaborou para nosso sucesso, como artistas.

Johnny: Você considera, esse teu álbum, uma síntese de tudo que você fez em sua carreira?

Martins: Definitivamente! Vou te contar uma coisa, esse álbum foi a minha contribuição pro Marsa. A banda era, basicamente, eu e mais quatro pessoas, só que ainda tinha toda aquela contribuição de todos os músicos. Dessa vez, no meu projeto solo, eu resolvi pegar a introspecção das letras do Marsa e deixá-las ainda mais com a minha cara, fazer algo que me representasse por inteiro. Por isso que o nome do álbum é só Martins, sou eu em essência. Ele ainda tem aquela pegada da poesia metrificada e batidas afro da época do Sagaranna, também, mostrando que eu, realmente, não perdi nada das coisas que já fiz. Esse album sou eu por inteiro. 

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