Conto – a espera de um bilhete

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papel e caneta, caneta e papel…, mas de que adianta escrever sobre um corpo sem poder de fato o tocar para poder descrever o simples gesto do tato?

café. sim, é esse o aroma que me vem à mente ao lembrar aquele dia. tua pele branca bronzeada em tons de mel me aguçava tanto a vista que não resisti a tentação de convidar-lhe a uma dança. graças aos deuses, deste e de outros tempos, tu aceitaste de bom grado o meu convite – aliás, obrigado –. confesso que não pude deixar de notar a forma como todos olhavam para nós, – mas quem se importa? não temos culpa de que nosso eu não seja aceito e que nossa forma de amar não seja vista com bons olhos – era um jazz bom demais para se negar a extravagância.

conversamos enquanto rodopiávamos pelo salão. nos sentamos numa mesa distante, próxima a parede do lado norte do bar. bebemos: você um café preto dos fortes e eu um martini. foi uma noite longa demais para quem se perde (e se prende), muito rápido a um sorriso – cativei-me de uma maneira tão única nele que me senti um cão de rua perdido que acaba de encontrar o seu dono que há muito não o via.

pedi a conta e paguei-a sozinho, mesmo com sua tamanha insistência para que dividíssemos.

saímos para o mundo.

fomos ao parque 13 de maio onde ficaste por volta de meia-hora alimentando os patos de uma maneira tão gentil quanto o garoto que um dia fostes. pude ver isto em teus olhos e te conhecer tão bem naquele momento que parecia algo de outras vidas. estávamos em pé, lado a lado, antes de você cair por cima de mim no banco, me encarar e falar:

– você sabe o que significa quando tu encontras uma pessoa que parece ser a melhor do mundo e no mesmo momento, dia ou noite, não importa, começa a chover?

– não, mas eu acho que signif…

– significa que ela pode ser o amor da sua vida, ou…

– ou…?

– que você deve beijá-la.

jamais esquecerei do primeiro encontro de nossos lábios, da fusão dos hálitos e da minha barba roçando sobre teu rosto liso. ah agenor… que saudades tuas.

nos tocamos sobre o banco, nos beijamos mais e, ao ouvir o som do apito do guarda, levantamo-nos de um salto só e saímos correndo em direção à rua princesa isabel. andamos de mãos dadas pela rua da aurora até chegarmos em meu apartamento em cima do cinema são luiz.

subimos as escadas, abri a porta para que entrasse.

tranquei-a.

naquele dia havia mandado avisar a dona fátima que não estaria para nada e nem ninguém. fui somente teu. te observei perdido em meio a decoração de minha casa: os quadros que ocupavam todo o espaço de minhas paredes e as estantes abarrotadas de livros que quase transbordavam.

pendurei teu casaco no cabideiro e joguei teu corpo no sofá. Juntei-me a ti logo em seguida, mergulhando em teus beijos e imerso em teu corpo. tua mão passeava pelo meu corpo com a mesma delicadeza e ferocidade em que viro as páginas dos livros que devoro. nos despimos com tamanha pressa para que possamos alimentar o desejo de ambos os corpos que prezam por fundir-se em um só. passeei minha boca por teu corpo tão calmamente quanto um barquinho de papel que veleja numa poça d’água que se forma no chão após a chuva.

te desnudei completamente.

te engoli.

senti teu gosto em meus lábios e em toda minha boca. meu prazer fora alimentado por teus gemidos. nosso prazer.

pressionei meu corpo sobre o teu enquanto cheirava teu pescoço sentindo teu perfume flor de laranjeira misturado com lavanda. nos beijamos mais. nos unimos. fomos para o quarto. me deitei na cama e virei de costas. fechei os olhos, apertei e mordi os lençóis. erámos um. uma união de: corpos, calor, sentimento e poesia.

Perdi-me em meio a uma orgia de sensações durante nosso movimento. gozei pelo prazer provocado por ti. por nós.

deitados, nos abraçamos e antes de dormir perguntei-te:

– você está bem?

– como nunca me senti em 100 anos.

*

amanheceu.

acordei só.

procurei por ti, agenor, porém não o encontrei em lugar algum. agenor, cadê tu? o cheiro de café pairava sobre a casa e tive a infeliz sensação de que nunca mais o veria.

sentei-me a mesa e me perguntei o que talvez tenha acontecido para que tivesses de ir embora assim. teria sido emergência familiar ou um simples atraso para um compromisso? jamais saberei. fitei a xícara que repousa sobre a mesa e me questionei: teria custado muito tempo deixar um bilhete? papel e caneta são coisas que não faltam a um escritor!

ah agenor… como eu queria conhecer o cursivo de tua letra tão bem quanto conheço teus corpo e sorriso curvados.

-Antônio
27/02/2017

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