Foto: Reprodução/Divulgação
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Lady Gaga e a estrada dos tijolos amarelos para Chromatica

Historicamente, contextos sociais mais aflituosos do que o que estamos habituados terminam por ser embalados por músicas que, de alguma maneira, trazem conforto às pobres almas perdidas nesse pequeno pontinho azul no meio do universo. Como disse John Harris, em um artigo no The Guardian, anos atrás, sobre o Coldplay, “suas músicas parecem se tornar mais leves e alegremente otimistas em proporção direta à natureza conturbada do mundo“. Não ironicamente, talvez fosse disso que estivéssemos precisando, e só percebemos isso depois do lançamento de Chromatica, o sexto álbum de estúdio da ora extravagante, ora minimalista Lady Gaga. Produzido em sua maioria por BloodPop, que já teve suas mãos em trabalhos de artistas variados, desde o mainstream com Madonna e Justin Bieber, chegando até o underground com Grimes e HANA, o álbum inteiro soa como um contraste entre suas progressões melódicas coloridas (parte do conceito do Chromatica envolve cores e semitons) e letras intimistas, que expõem o amadurecimento de Gaga como artista, desde o começo até os dias atuais.

A fama

Durante anos, Stefani Germanotta fez um considerável esforço para se erguer dentro da cena musical nova-iorquina, cantando em bares, boates e fazendo contatos. Adotando o nome artístico Lady Gaga, uma referência à música do Queen, Radio GaGa, aos poucos preparava o terreno para a sua gênese. Com seu som repleto de referências pop, seu visual extravagante e seu conceito peculiar, logo ela chegou ao estrelato com seu disco The Fame (2008). O som era mirabolante, divertido e colorido, com seu conceito apoiado na fantasia inerente ao ser humano de se tornar reconhecido, ter a aprovação de outros e, mais importante, ser famoso. Músicas como Just Dance, Paparazzi, LoveGame e claro, Poker Face, rapidamente catapultaram Gaga rumo ao estrelato.

Preferida do autor: Money Honey

O monstro

Logo após, com um público já conquistado, The Fame Monster (2009) veio ao mundo, sendo um EP que propunha justamente a antítese de seu antecessor. Agora Gaga era famosa e estava enfrentando adversidades que nunca pensou que enfrentaria. O yin e o yang agora eram visíveis e o fato de seus dois primeiros álbuns acompanharem seu desenvolvimento como artista em meio ao show business demonstra um forte desenvolvimento de personagem. Não que aquilo que vimos como Lady Gaga tenha sido apenas uma interpretação, mas tendo em vista um paralelo com o cinema, o mundo inteiro a viu crescer e se adaptar a uma nova vida. Além disso, é bom lembrar de seus vários e vários alter egos, como o garanhão Jo Calderone, Candy Warhol e Yüyi, a sereia. The Fame Monster conseguiu não só manter a atmosfera divertida e dançante, como inverter tudo e aumentar, sendo maior e mais sombrio que seu antecessor. Tudo era meticulosamente calculado para alçá-la ainda mais alto.

Preferidas do autor: Bad Romance e So Happy I Could Die

Do jeito que nasci

A transição entre The Fame, The Fame Monster e Born This Way é homogênea, como se fossem detalhes a serem acrescentados a um conceito já estabelecido. Algo muito semelhante a Michael Jackson, que em sua transmutação passeou entre o som disco romântico e despretensioso de Off The Wall (1979), o som oitentista marcante e milimetricamente calculado de Thriller (1982) até o marcante, divertido e icônico Bad (1987). Mesmo com as mudanças físicas de Michael e no visual da própria obra, não podemos dizer que aquilo não era Michael Jackson. Não existe uma ruptura de verdade na interseção entre um álbum e outro, mas também não podemos dizer que eles são todos a mesma coisa. Gaga continuava sendo Gaga, mas ela tinha, inevitavelmente, crescido. Born This Way reciclava ideias antigas (é só comparar Scheiße a Bad Romance e Highway Unicorn a Poker Face), mas acrescentava tantas novas ideias que era praticamente impossível não abraçar a ideia. Foi aqui que Gaga conseguiu de vez o apoio da comunidade LGBTI+, ao dizer que estava tudo bem ser quem você era. Direitos das mulheres, dos imigrantes latinos e uma sexualidade mais aberta e descontraída mostravam ao mundo que Lady Gaga mantinha-se coesa à sua essência, mesmo trabalhando com alguns novos produtores, como Fernando Garibay, DJ White Shadow e DJ Snake. Também estavam lá Brian May, guitarrista do Queen, e o saxofonista Clarence Clemons, em um som que não só era eletrônico, mas também era rock, house, disco, ópera e gótico. Mesmo com as acusações de plágio à Madonna, Whitney Houston e um sample de um programa de computador, foi aqui onde Gaga teve não só a sua aclamação máxima, mas também o ápice de sua criatividade como artista.

Preferidas do autor: Judas, Hair, Scheibe, Americano e Heavy Metal Lover.

O pop, a arte e a bagunça digna de Pollock

Já falando de ARTPOP, é um ponto bastante polêmico. Ele realmente representa um distanciamento da Gaga sombria e gótica de Born This Way, mesmo que mantenha referências à moda (Fashion! e Donatella são apenas alguns exemplos), arte (Aura e a própria ARTPOP) além de uma balada lenta no piano à la Elton John, marca registrada da Gaga, que sempre inseriu uma música do tipo em cada álbum, desde Brown Eyes e Speechless. Uma grande colcha de retalhos que pode causar estranheza ao ouvinte acostumado com as fortes ligações temáticas das musicas do Born This Way e do storytelling cinematográfico de The Fame Monster. O disco é extremamente divisivo; existe quem odeie e existe quem adore. Segundo a cantora, esse seria o seu disco mais dedicado aos fãs (Applause estava lá para provar isso). Porém, a falta de coesão entre faixas como Aura (eletrônico industrial), Fashion! (uma disco music produzida por David Guetta e will.i.am) e Jewels n’ Drugs (um trap, sim, um trap. Eu disse um trap) acabava por ofuscar a qualidade inegável das faixas, que mesmo boas, pareciam perdidas. Não bastante isso, a polêmica em cima da parceria com R. Kelly (acusado múltiplas vezes de pedofilia, pornografia infantil e estupro), a infame e erótica Do What U Want, colocou a cantora em péssimos lençóis, ao ponto de retirar a música das plataformas de streaming, substituindo-a pela versão alternativa com Christina Aguilera. Contudo, esse foi o fim da extravaganza da Gaga durante muito tempo. 

Preferida do autor: Fashion!

Em 2014, a persona de Lady Gaga aparentava estar se transformando em algo, digamos, normal. As extravagâncias já não eram tão chocantes, o visual mais limpo e o som o mais regular possível. Foi nessa época que surgiu o Cheek to Cheek, álbum de jazz com Tony Bennett; álbum esse que, por mais batido que aparente ter passado, serviu para demonstrar o poder e a extensão vocal de Lady Gaga. Já em 2016, o seu retorno veio com o álbum Joanne, mas ainda assim teve uma recepção morna, se comparado com os seus antecessores. Joanne tinha como principais estilos o country rock e um pop mais embasado pelo rock n roll do que qualquer outra coisa já feita por ela. O disco era mais limpo, direto ao ponto, ao mesmo tempo que íntimo, posicionando-a como musicalmente versátil e multifacetada. Nessa mesma época, Gaga lançou a música Til It Happens to You, trilha sonora do documentário The Hunting Ground, sobre abuso sexual em universidades.

Todas essas “empreitadas” fora do modus operandi excêntrico da cantora foram estrategicamente bem pensadas para demonstrar a sua versatilidade como artista e reforçar o seu apoio a causas sociais e minorias, apoio esse que ela já mostrava no início de sua carreira, conquistando um público ainda mais amplo e não se limitando apenas a um público-alvo.

Contudo, nenhuma foi tão poderosa quanto o seu papel como Ally Maine em Nasce Uma Estrela. O filme, quarta adaptação de um grande clássico, foi aclamado pela crítica de forma superior aos seus antecessores, estrelados por atrizes do porte de Barbra Streisand e Judy Garland. O que parecia extremamente inusitado se tornou uma agradável surpresa, após o seu lançamento. O filme era sério, com um roteiro plausível e muito bem escrito, fruto da produção magistral de Bradley Cooper. Entre diversas premiações, as mais marcantes foram o Globo de Ouro, dois Grammys e um Oscar, para Gaga, de melhor canção original. Mais do que isso, o filme faz um paralelo muito parecido com a carreira musical da própria artista, que teve suas dificuldades retribuídas com um sucesso estrondoso.

Por fim, chegamos a Chromatica. Após meses de espera e sessões de estúdio com artistas como Boys Noize, Max Martin, Skrillex, Axwell /\ Ingrosso e BloodPop, o disco saiu no final de maio. Mesmo saindo depois de um adiamento de mais de um mês, não poderia ter vindo em momento melhor. A obra é, em si, um ode à alegria e à celebração, principalmente em tempos de incerteza. Funcionando de forma semelhante ao Confessions on a Dance Floor (2005), da Madonna, o registo funde perfeitamente a atmosfera dançante e fluida com um verdadeiro tom íntimo das letras, intercaladas por pequenos, porém marcantes, atos orquestrais.

Fun fact: a transição entre Chromatica II e 911 é a mais interessante do disco. Faixas como Rain On Me, em parceira com Ariana Grande, Free Woman e Fun Tonight refletem isso perfeitamente. Se em Rain on Me, Gaga afirma conseguir superar as adversidades a tentarem derrubar, em Free Woman, o abuso que sofreu no inicio da carreira é explicitado, deixando claro que não é um homem que diria o que ela deve ser. Em 911, é explicado sobre os remédios antipsicóticos e em Fun Tonight, ela se abre ao alegar fazer o máximo para deixar seus fãs felizes, por mais que nem sempre ela mesma esteja. Replay apresenta um sample muito bem encaixado de It’s My House (1979), de Diana Ross Em Sine From Above, Gaga subverte as expectativas e acaba surpreendendo ao disparar Elton John a um house muito semelhante aos trabalhos de Axwell /\ Ingrosso em More Than You Know (2018). Nenhuma coincidência, já que, enquanto Axwell é um dos produtores, Sebastian Ingrosso e Salem Al Fakir são compositores dessa faixa. Por fim, Babylon entra como um épico ao cruzar referências entre a vida boêmia e desregrada dos antigos da Babilônia, a cultura do voguing e um sample de Confusion, do New Order, de forma divertida e desontraída, mas sem perder a excelência na produção e lírica da faixa.

Por mais que este não seja o melhor disco da cantora, fica nítido o empenho para que este seja, no fim das contas;,o mais íntimo. Entre a reinvenção da indústria da música com o poder absoluto dos serviços de streaming, diminuindo o tamanho e a complexidade das músicas para uma geração cada vez mais líquida e impaciente, e em um cenário onde artistas que surgiram na mesma época de Gaga parecem não ter o mesmo impacto, ela se mantém relevante, criativa e espontânea, entregando um devocional à felicidade em meio a tempos tão tristes.

Preferidas do autor: Stupid Love, Rain On Me e 911.

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