Como a tatuagem, antes marginalizada, se tornou símbolo de identidade

Para a maioria das pessoas ao redor do mundo o que é considerado arte é bem simplório: pinturas, esculturas, artesanato e até poemas. Contudo, será que a arte pode ser limitada a esses formatos? Sabe-se que a arte é plural e nos dias atuais, principalmente, há diversas modalidades de arte pelo mundo e milhares de formas diferentes de se expressá-la. A tatuagem é uma delas e, como qualquer boa arte, sofreu e ainda sofre com certos pré-conceitos. No contexto da sociedade contemporânea, o individualismo induz muitas pessoas a fazerem de sua pele o local do registro de ideias, valores ou da simples vaidade. Mas por que marcar a pele de tal forma?

Algumas das mais antigas civilizações do mundo costumavam adornar o corpo com técnicas e desenhos variados. Estudos mostram que a tatuagem faz seu lugar no mundo desde 3.300 a.C. com o, carinhosamente nomeado, “Ötzi” e sua fricção de carvão pelo corpo. Os romanos também não ficaram atrás. Estes deixavam as tatuagens apenas para os criminosos e condenados, por justamente não acreditarem na pureza da forma humana. Contudo, com o passar do tempo eles viram nas tatuagens uma forma de expressão e uma forma de simbolizar a admiração à bravura dos seus guerreiros. Se fosse possível, então, percorrer pessoalmente toda a linha histórica das diversas culturas no mundo que utilizavam alguma forma de tatuagem, seria possível notar dois pontos em comum em todas elas: tradição e a vontade de expressão.

Foto: Arquivo Pessoal/Cortesia

É evidente que a origem da tatuagem. nos diversos pontos do globo, varia a partir de cada cultura e, graças a isso, é possível obter uma percepção sobre a necessidade milenar do ser humano de se tornar visível, seja pronunciando palavras ou as desenhando no corpo. Algumas culturas a fio passaram a forma de se tatuar por gerações como uma tradição, outras às utilizavam de forma mundana. Contudo, como tudo novo que surgiu nesse mundo, no inicio de todo o processo esse tipo de arte era dirigido e estereotipado as pessoas à margem da sociedade e ao comportamento de risco, assim como às classes socioeconômicas mais baixas, à prostituição e, finalmente, ao crime. Somente com o passar dos anos que a visão marginal passou a se tornar um símbolo de identidade pessoal. “Quando a tatuagem deixou de ser uma coisa suburbana, deixou de ser algo que só um grupo de pessoas tinha e passou a alcançar pessoas que tem um lucrativo maior, pessoas de classe media e alta, perdeu essa visão de criminalidade“, opina o tatuador profissional e empreendedor recifense, Felipe Alves.

Os jovens dos anos 1960 e 1970 foram um dos primeiros a verem em primeira mão a popularidade da tatuagem. Esta foi ganhando força a partir do momento em que o movimento hippie e a contracultura foram se aflorando. Claro que estes jovens com toda sua liberdade revolucionária foram os mais atraídos por essa nova modalidade. O próximo passo adquirido, então, que se tornou um fator fundamental que influenciou essa recém-descoberta popularidade, foi os avanços técnicos, como máquinas mais precisas, tintas de qualidade e procedimentos bem mais seguros. “O tempo também ajudou e o desenvolvimento da tecnologia ajudou mais ainda. Antigamente, era muito mais grosseiro, com maquinas que machucavam a pele e muito barulhentas”, conta ainda Felipe. “Hoje em dia, nós temos mais senso de como não machucar a pele e de como cuidar dela melhor tanto durante o processo de tatuar quanto depois de feita. Então, conseguimos ter essa visão tanto assepsia quanto biológica e tecnológica. Antes se soldavam as agulhas nas máquinas e hoje em dia nos temos tudo descartável e muito mais prático“, conclui.

Foto: Arquivo Pessola/Cortesia

O que antes era um item exclusivo de uma cultura jovem, hoje se tornou uma via de expressão de subjetividade para todas as idades. É o caso da família Fernandes. A estudante Gabriela Fernandes, de 19 anos, sua mãe, Joseane Fernandes, de 48 anos, formada em administração, e a tia, Josineide Fernandes, de 50 anos, professora de desenhos geométricos, representaram esse estigma. “Nós, minha mãe, minha tia e eu, decidimos fazer porque a tatuagem representa vários pontos da nossa mentalidade e ideais que são parecidos. Para mim, em especifico, representa força e é uma lembrança do meu relacionamento com elas”, relata Gabriela.

Foto: Arquivo Pessoal/Cortesia

A dimensão que as tatuagens tomaram e o espaço que elas conquistaram no mundo é inevitável. A modernidade trouxe visões e liberdades antes desconhecidas, mostrou ao ser humano que ele pode ser ele mesmo e expressar isso da forma que bem entender. Além disso, deu a pessoas que antes não sabiam seu lugar no mundo, por assim dizer, uma paixão e algo a que se doar. “Tatuar pra mim é uma das coisas que eu mais gosto de fazer. Tatuaria até se fosse proibido“, brinca o tatuador profissional, intitulado Príncipe Tattoo, Gabriel Batinga. “É uma arte que enquanto o corpo dura ela é eterna, mas que requer uma técnica muito superior. É complexo e cada vez que eu tatuo eu aprendo um pouco mais sobre mim e sobre a arte da tatuagem, pois é terapêutico”, continua ele. A mudança de estilo de muitas pessoas pode começar por um simples desenho e pode ir além de somente um intitulado modismo.

O fato é que as tatuagens revelam os significados psicológicos em relação às partes do corpo em que se tatuam e em relação à simbologia de cada desenho feito. A atual realidade da sociedade mostra uma verdadeira melhora sobre a visão desta sobre as tatuagens.

Foto: Arquivo Pessoal/Cortesia

Contudo, há aqueles que ainda permanecem crendo que tudo é feito para chamar atenção e seguir uma moda da época. As marcas que cada um quer deixar na pele são permanentes e muitas vezes elas representam as marcas internam de alguém, transformando a tatuagem em uma verdadeira identidade simbólica. Alguém que quer liberdade, que deseja uma metamorfose do seu ser pode desenhar uma borboleta. Já algo que mostra amor e esperança a quem tem tendências depressivas e suicidas, pode ser representado pelo ponto e vírgula. A verdade é que nunca se sabe o que cada desenho permanente significa para cada pessoa. A estudante de odontologia, Gabriela Mustafa, fez recentemente uma com bastante significado para ela. “Eu acho lindo você poder fazer algo que tenha um significado importante para você e deixar isso eternizado, sabe? Então meu pensamento é esse, fazer tatuagem que realmente tenha um significado importante!”, relata ela. “Eu sempre quis fazer tatuagem, sempre achei bonito, mas só queria fazer uma tatuagem que representasse algo importante para mim, então, eu fiz uma a minha primeira em homenagem a minha mãe. Agora, vou fazer outra em relação à fé, proteção.”, finaliza Gabriela.

A constatação de toda a história da tatuagem, de todas as pessoas com desenhos gravados no corpo sempre geraram polêmica e preconceito. É um fato que todo âmbito diferente do tradicional vai enfrentar, porém isso não desmerece o valor dele. Desde a invenção da primeira maquina elétrica, por Samuel O’Reilly, até as incríveis criações de hoje, a tradicionalidade e o comum foi posta em jogo e essa classe antes minoritária ganhou mais espaço e não pertencem mais a um determinado grupo. Com os mais variados desenhos e uma nova forma de expressão individual, a popularização da prática da tatuagem pôde ser exposta em todos os lugares e até em feiras e convenções que são regularmente organizadas em diversos países e reúnem um público bastante eclético que tem como único ponto em comum o interesse pelos desenhos gravados na pele.

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